Escrevo-vos de Marrakech, Marrocos. Nestes últimos dias, imerso numa cultura tão rica quanto distinta, dei por mim a refletir sobre a teia invisível que une os três anfitriões do Mundial de 2030. Longe de querer fazer comparações simplistas, é inevitável olhar para o nosso passado partilhado e, sobretudo, para o futuro que estamos a construir, ou a adiar.
A ligação entre Portugal, Espanha e Marrocos transcende a geografia; é um legado civilizacional histórico. Partilhamos a herança do Al-Andalus, que moldou a nossa arquitetura e o nosso léxico, e partilhámos as rotas do Mediterrâneo e do Atlântico. Cinematograficamente, basta recordar o icónico filme Casablanca (1942), onde a mítica cidade marroquina servia de antecâmara de esperança para refugiados europeus que procuravam desesperadamente passagem para uma Lisboa neutra, livre e cosmopolita. Historicamente, fomos portos interligados.
Há países que organizam grandes eventos porque têm dinheiro; outros porque têm visão. E depois há aqueles que, perante uma oportunidade histórica, a transformam numa sucessão de entraves burocráticos e querelas provincianas.
O Mundial não é só um campeonato de futebol. É uma montra global de turismo, investimento, hotelaria e diplomacia. E, olhando para o terreno, é difícil não concluir que Portugal hoje ainda não está preparado para receber o mundial.
Espanha
Podemos ver as falhas, crispação ou até corrupção do governo socialista de Pedro Sanchez. Contudo, basta atravessar a fronteira para constatar uma realidade: Espanha tem execução. Têm escala, infraestruturas de excelência e uma máquina turística altamente oleada para absorver milhões. A economia, lá, funciona apesar da política.
Marrocos: A grande revelação
Há um fervor de renovação urbana, expansão hoteleira e investimento massivo nas infraestruturas. A isto soma-se o trunfo inimitável da hospitalidade magrebina. Sabem vender uma experiência e integrar o seu património, gastronomia e arquitetura numa oferta turística exímia. Arrisco dizer que, perante a velocidade da sua preparação, Marrocos será o destino mais interessante dos três. Marrocos hoje está como Portugal estava logo após ter havido a aposta no Turismo pelo Governo de Pedro Passos Coelho, quem visitava sentia uma vontade de investir, talvez comprar um imóvel ou até mudar-se para cá no fim da vida.
O Paradoxo Português e a cultura do bloqueio
Se Espanha sofre de um Governo moribundo e pouco recomendável, Portugal sofre do mal inverso. Temos Governo com vontade, apesar de não ter maioria absoluta, tenta fazer o que é preciso fazer. Temos capacidade técnica, empresários e trabalhadores de excelência num país difícil e sabemos exatamente o que falta: construção de um aeroporto, o aeroporto de Lisboa a funcionar bem, mais segurança, mais excelência e camas de hotel. Mas assim que a obra planeada tenta sair do papel, arranca a procissão dos bloqueios.
Um investimento estratégico transforma-se, num instante, numa trincheira cultural. Veja-se o caso da contestação a projetos hoteleiros em Cascais e Paredes. Assistimos, demasiadas vezes com a complacência mediática e o aparente beneplácito de certos setores da justiça, a associações de comunistas, travestidas de ambientalistas, que nunca construiram nada a travarem investimentos multi-milionários. O objetivo não é ecológico, é o ataque político a governos. É o modus operandi de uma república das bananas, onde os fins justificam qualquer meios.
E o aeroporto de Lisboa?
Não precisamos sequer de debater questões técnicas para perceber a gravidade da situação. A primeira e última impressão o país continua a ser um dossiê eternamente adiado. Quem aterra para um evento global não pode sentir que chegou num buraco onde ninguém parece saber o que está a fazer.
Portugal tornou-se refém de uma cultura perigosamente confortável: não fazer, não deixar fazer e depois lamentar a estagnação. Confunde-se fiscalização com paralisia crónica. Quem nunca ergueu uma parede transforma a oposição sistemática a tudo numa espécie de heroísmo cívico.
O Mundial de 2030 vai acontecer. Espanha e Marrocos estarão lá, e estarão prontos. Resta saber Portugal.











