Parece que os esguios choupos são colunas onde se entrelaçam, brincado, as rendas das uveiras, nada mais artístico e nada mais delicado que esse manuelino estilo da natureza, prodigamente espalhado a cada volta da estrada, a cada vedação do terreno…Como se o cortejo tivera de ser grandioso, o vale (do Rio Torto) estende-se por isso largamente florido, ridente, cheio de frescura, até além do Cávado,…”, in O Minho Pitoresco (1887).
Esta descrição da zona a oeste do núcleo urbano de Braga tem quase 140 anos, mas, ainda hoje, é possível constatar a beleza do vale superior do Rio Torto, na passagem de Ferreiros para Maximinos, depois para Gondizalves e, por fim, Semelhe. Apresenta pequenos bosques, muitos campos de cultivo, e aqui e ali um antigo, mas castiço núcleo populacional, resultando num agradabilíssimo ambiente rural às portas da grande urbe.
Porém, num horizonte inferior a uma década, toda esta bucólica paisagem deverá sofrer um forte e definitivo impacto, já que a Presidência do Município para aí anunciou a construção da Grande Estação Ferroviária da linha de alta velocidade – ainda que especialistas da mobilidade a contestem – tendo também anunciado a construção do troço rodoviário integrante da Circular Rodoviária Externa, entre Ferreiros e Frossos, até 2029, mas ainda sem confirmação oficial por parte do Governo de Portugal.
Caso estas vias de comunicação se concretizem e a Grande Estação Ferroviária seja uma realidade em Semelhe, haverá que juntar os acessos rodoviários, parques de estacionamento, bem como uma expectável expansão da malha urbana, com construção de edifícios de vários pisos para habitação, negócios e núcleos empresariais. A esta dupla fractura num mesmo território imposta pelo progresso, haverá que compensar com a criação, preservação ou beneficiação de um grande espaço verde.
Assim, nas redondezas, ergue-se o Monte das Caldas, que poderá reunir as características para uma valorização que beneficie o concelho de Braga e a sua população. A sua imensa área, com cerca de 100 hectares, proporcionará as condições para um necessário aumento da cobertura arbórea do concelho, contribuindo para a mitigação dos efeitos da poluição do ar devido ao excessivo tráfego automóvel, bem como reduzir a distância média da habitação dos cidadãos da zona oeste do concelho a uma zona verde, promovendo a elevação da qualidade de vida em Braga. Também, a exemplo das Sete Fontes, tem vestígios de valor histórico e patrimonial a preservar, como o Castro da Idade do Ferro e respectivas muralhas, bem como outras antigualhas mais recentes, o que lhe poderá conferir o título de Parque Eco Monumental do Monte das Caldas.
O executivo municipal bracarense está esperançoso de fechar a Circular Rodoviária Externa, mas, simultaneamente, pode avançar para o fecho do Cinturão Verde ao redor do núcleo urbano. Se a Sul existe o Parque da Ponte, o Monte Picoto e o Parque das Camélias, aos quais se junta o projecto do Parque Ecológico do Rio Este em Lomar; a Este o Parque das Sete Fontes e o Complexo Desportivo da Rodovia, aos quais já se deveria ter acrescentado o Parque Verde da Quinta da Arcela; a Norte a intenção de criar o Parque de São Martinho; então, Braga tem de ambicionar o seu Parque Verde Oeste, para garantir um maior equilíbrio entre a Civilização e o Meio Ambiente.















