A Faculdade de Direito de Lisboa, onde me licenciei nos anos 2000, era, à época, conhecida pela sua enorme rigidez no tocante à admissão de doutorados no respetivo corpo de docentes.
Só aqueles que tinham feito o doutoramento pela própria faculdade é que eram aceites.
Ora, a esse propósito, contava-se uma história deliciosa. Paula Escarameia, doutorada em Direito Internacional Público pela Universidade de Harvard, vira a sua candidatura para integrar o corpo de Professores da Faculdade de Direito de Lisboa rejeitada.
Consta que a Universidade de Harvard, tendo tomado conhecimento da recusa, enviou então uma carta à Faculdade de Direito de Lisboa deste género: “Foi com surpresa que soubemos que rejeitaram uma doutorada formada pela nossa escola de Direito. Só podemos concluir que se trata de Faculdade muito reputada, por certo com vários prémios Nobel formados na mesma. Aqui segue, em anexo, a lista de prémios Nobel formados pela nossa Universidade. Ficamos a aguardar que nos enviem a vossa lista”.
Lembrei-me desta historieta, bem ilustrativa da falta de noção da minha faculdade, a propósito da recente entrevista de Benjamim Pereira ao E24, na qual acusou Alberto Figueiredo de ser “um homem com 75 anos, desatualizado face às exigências da sociedade atual”.
Alberto Figueiredo, vejamos, é reconhecido como o autarca responsável pelo salto significativo no desenvolvimento de Esposende em democracia: do saneamento básico em várias freguesias do concelho à construção de habitação social, passando pela instalação de equipamentos relevantes como, por exemplo, as piscinas municipais, o museu municipal e o posto de turismo, ou a requalificação de ruas e escolas, entre tantas outras obras.
Ora, na vertente que assume agora, de candidato à Assembleia Municipal de Esposende, Alberto Figueiredo tem aludido, entre outras propostas, à necessidade de cobrir a totalidade do concelho de Esposende com saneamento básico, algo que, como se sabe, inexiste nalgumas freguesias, ou à necessidade de se construir mais habitação social, sabendo-se da grave crise de habitação que atinge o país e da qual Esposende não é alheio.
Outros temas também trazidos a debate por Alberto Figueiredo são, por um lado, a necessidade de tornar o Município de Esposende mais transparente – o que não será despiciendo, pois, nos mais recentes dados do índice Dyntra, da organização internacional sem fins lucrativos Dyntra, que mede a transparência das câmaras municipais, Esposende surge em 121.º lugar, com apenas 23,02% (!) de índice de transparência – e, por outro lado, dotar o Município de uma gestão financeira mais eficiente e menos propensa a derrapagens, preocupação, de resto, que encontra adesão nos últimos dados relevados pelo Anuário Financeiro dos Municípios, elaborado pelo IPCA e com o apoio da Ordem dos Contabilistas Certificados e do Tribunal de Contas, segundo os quais, em 2023, o Município de Esposende estava fora do top-100 dos municípios com melhor eficiência financeira.
Se Benjamim Pereira entende que o saneamento básico, a habitação social, a transparência ou a eficiência financeira são temas desatualizados, que não interessam à sociedade esposendense, apetece, então, tal como fez a Universidade de Harvard, pedir para que envie a lista dos temas que, pelos vistos, importam aos nossos concidadãos.
Alberto Figueiredo, a partir da sua muito diversa e rica experiência, com importante pendor internacional, propõe-se trazer novas perspetivas, ajudando a pensar e projetar o futuro do nosso concelho. De resto, é para isso mesmo que servem as campanhas.
Por seu turno, Benjamim Pereira, entre a incapacidade de ir a jogo no debate de ideias e a falta de noção, optou por fazer da idade de Alberto Figueiredo uma questão da campanha.