Frente de fogo em Terras de Bouro, em pleno Parque Nacional da Peneda Gerês (PNPG), pode tornar-se numa das maiores tragédias do Gerês.
Mas é a frente ativa em Terras de Bouro, que desce pela Serra Amarela, que mais preocupa autoridades e especialistas — podendo vir a ser uma das maiores catástrofes ambientais dos últimos anos no parque nacional, único e icónico do país.
Deste lado, e como documenta a fotografia tirada por Rui Barbosa às 13h00 de hoje, não há bombeiros, meios aéreos, apenas o grito silencioso da natureza.
“No dia 30 de Julho, o vice-presidente da Câmara de Ponte da Barca, José Alfredo, disse que o incêndio que lavra desde a noite do dia 26 é “uma facada no coração” do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), único parque nacional do país. Eu digo que o incêndio que lavra desde a noite do dia 26 é uma facada nas costas do Parque Nacional e de todos que nele vivem!”, afirma Rui Barbosa, que vive na aldeia de São João de Campo, em Terras de Bouro.
Este geresiano frisa mesmo que o PNPG foi “abandonado pelos sucessivos governos“.
“Sem uma gestão eficaz, sem um diálogo eficaz entre tutela e populações, sem meios, com pouca vigilância, o PNPG é mais uma vez vítima de um grande incêndio que se inicia na mesma zona onde onde há três anos havia ocorrido situação semelhante”, aponta.
A fuga
Os animais selvagens fogem em desespero. Muitos perdem-se no meio do fumo, outros ficam encurralados. A Mata do Cabril já tem um fogo por cima da cabeça e a Mata de Albergaria é o “cliente” que se segue.
É o reflexo de um cenário que não é apenas humano: é também um grito silencioso da natureza. No parque com mais de 50 anos de história, onde coexistem corços, lobos e águias-reais, o fogo espalha destruição e medo — um inimigo que os homens não enfrentam a tempo, apesar dos alertas.
Às 14h06, o fogo mobilizava 508 operacionais, 163 viaturas e seis meios aéreos. Todos com a preocupação de evitar que o espólio material humano não seja atingido. Embora no terreno haja relatos de discrepância entre os números oficiais e os meios efetivamente em combate direto.
Salvar o Homem
Segundo Augusto Marinho, presidente da Câmara de Ponte da Barca, a prioridade é travar as chamas antes que atinjam as aldeias de Sobredo e Lourido.
“É uma frente imprevisível e extremamente perigosa. Os meios aéreos são essenciais para proteger as populações”, alertou.
O fogo chegou a obrigar à evacuação de 150 pessoas de Britelo, Germil, Sobredo e Lourido. Todas já regressaram, mas o medo permanece. Em Germil, a memória da tragédia de Mélodie, a jovem emigrante de 18 anos que perdeu a vida num incêndio em 2010, ainda está bem presente.
Augusto Marinho deixou ainda palavras de apreço para as populações que colaboraram com as autoridades e desejou rápidas melhoras aos 19 operacionais feridos, seis dos quais necessitaram de hospitalização.
Enquanto o rescaldo decorre em alguns pontos, a frente de Terras de Bouro continua ativa — e com ela, a ameaça de um desastre que poderá marcar para sempre o coração do PNPG.



