A falência da Builder.ai expõe o primeiro colapso significativo na vaga de startups de IA.
A Builder.ai, empresa britânica fundada por Sachin Dev Duggal, chegou a ser celebrada como protagonista da revolução da inteligência artificial – atingindo uma valorização de até 1,5 mil milhões de dólares – mas entrou em insolvência em 2025, após desvios financeiros e práticas enganosas que vieram a público.
Inicialmente lançada em 2016 como Engineer.ai, a empresa prometia tornar o desenvolvimento de aplicações tão simples como pedir uma pizza – promessa que atraiu grandes investidores como a Microsoft, o fundo soberano do Qatar e a SoftBank.
O auge ocorreu em 2023, com investimentos superiores a 500 milhões de dólares.
As desconfianças surgiram desde 2019, quando reportagens revelaram que a plataforma, ao contrário do que afirmava, dependia maioritariamente de programadores humanos para escrever código, contrariando a suposta aplicação de IA.
As práticas de contabilidade criativa continuaram e, entre 2021 e 2024, a Builder.ai e a empresa indiana VerSe foram acusadas de realizar “round-tripping”: faturar serviços fictícios entre si para inflacionar artificialmente os resultados financeiros.
O aumento das suspeitas culminou em auditorias internas e revisões contabilísticas.
Em abril de 2025, o novo CEO, Manpreet Ratia, reviu em baixa o faturamento de 2023 para 140 milhões de dólares e reduziu as projeções para o segundo semestre de 2024 em 25%. Contratou ainda a auditora BDO para análises aprofundadas.
A pressão financeira intensificou-se quando credores, como a Viola Credit, exigiram o bloqueio imediato de 37 milhões de dólares depositados na empresa.
Em maio, a companhia entrou oficialmente em insolvência nos EUA e a sua principal subsidiária, a Engineer.ai Corporation, nomeou um administrador para conduzir o processo.
Durante o anúncio formal do encerramento, ficou claro que a governação estava comprometida. Duggal tinha deixado o cargo de CEO, mantendo apenas a posição de “chief wizard” no conselho.
A empresa devia 85 milhões de dólares à Amazon e 30 milhões à Microsoft, e despediu cerca de 1 000 trabalhadores — cerca de 80% do total.
O caso Builder.ai tornou-se símbolo dos riscos no frenesim de investimentos em IA. Inúmeras empresas recorreram ao marketing aspiracional sem entregar resultados concretos.



