O presidente da Câmara de Braga, Ricardo Rio, prepara-se para deixar a liderança da autarquia após 12 anos no cargo e mais de duas décadas de vida pública.
Em entrevista concedida no Lima Business Center, conduzida por João Pedro Lopes, o autarca fez um balanço do seu percurso e revelou os planos para o futuro: “Vou voltar à minha vida profissional privada, em várias dimensões — académica, consultoria e ligação ao tecido empresarial”.

Fim de um ciclo político
Rio recordou o seu percurso desde 2001, quando foi eleito deputado municipal, até à presidência conquistada em 2013. “Foram mais de 20 anos de responsabilidades políticas e autárquicas”, afirmou, sublinhando que este é o momento de “interromper provisoriamente a vida pública”.
O autarca diz que está a encerrar compromissos assumidos: “Lancei 20 compromissos para os últimos 80 dias de mandato e todos ficarão concluídos”.
Projetos inacabados e legado
Entre as obras que gostaria de ter concluído, destacou o Estádio 1.º de Maio, que considera “uma peça patrimonial e emotiva para várias gerações de bracarenses”. O espaço, afirmou, “necessita de reabilitação urgente para garantir a segurança e aproveitar o seu potencial desportivo e cultural”.
Outros projetos que ficam por terminar incluem a Insula das Carvalheiras, a Residência da Confiança (2.ª fase), o Centro Francisco Sanches, o Teatro São Geraldo, o Pavilhão do ABC e o BRT.
“O próximo presidente já tem a agenda condicionada para os próximos dois anos”, afirmou Rio, referindo-se aos investimentos em curso e à execução orçamental associada.
Relação com o SC Braga
Ricardo Rio destacou o papel do SC Braga como “embaixador da cidade e motor de responsabilidade social”.
“A gestão de António Salvador transformou o clube num dos grandes do desporto nacional”, afirmou, apontando as conquistas em várias modalidades como reflexo de um “crescimento sustentado”.
Sobre a não concretização da venda do Estádio Municipal, Rio reconhece: “Não foi possível chegar a um entendimento. Fica para o próximo executivo”.

Braga afirmada no panorama europeu
O ainda presidente sublinhou a projeção internacional alcançada pela cidade. “Braga foi reconhecida por organismos europeus e mundiais como modelo em sustentabilidade, inovação, cultura e inclusão”.
Entre os prémios recebidos, destacou os World Travel Awards e distinções da ONU-Habitat e da SDSN.
“Esses reconhecimentos não são comprados. São o reflexo de resultados que melhoraram a vida de quem vive em Braga”, afirmou.
Gestão financeira e contas equilibradas
Rio garantiu que deixa a Câmara com as contas certas.
“A dívida de Braga é hoje menor do que em 2013. A diferença é que agora está toda às claras”, disse.
Nos últimos anos, foram pagos mais de 100 milhões de euros relativos ao Estádio Municipal, e o autarca assegura que “a Câmara é sustentável, com um modelo financeiro virtuoso”.
Apesar da redução da carga fiscal, a receita aumentou devido à dinâmica económica e imobiliária.
Relação com as freguesias e coesão territorial
O presidente destacou o trabalho de equilíbrio entre o centro e as freguesias, contrariando a prática de investimentos apenas em período eleitoral:
“Nós investimos todos os anos de forma igual, sem critérios partidários”.
Rio lembrou que, antes de 2013, havia freguesias cujos presidentes “nunca tinham falado com o presidente da Câmara”.
Hoje, diz, o município segue “uma política de coesão e qualificação do território”.
Cooperação regional e relação com Lisboa
Rio defende um modelo de colaboração intermunicipal, através da Comunidade Intermunicipal do Cávado, do Quadrilátero Urbano e da ligação à Galiza.
“Acredito que Braga, Guimarães e Barcelos são mais fortes juntas”, disse.
Admite, contudo, que “o Governo central não concretizou todos os investimentos que Braga merecia”, referindo o Nó de Infias e a variante do Cávado como exemplos de atrasos.

Universidade do Minho e segurança
Considera a Universidade do Minho um pilar essencial para a renovação e qualificação da cidade.
“É uma fonte de juventude, inovação e interculturalidade”, afirmou.
Sobre segurança, defendeu que Braga é “uma das cidades mais seguras do país”, mas apontou carências nas infraestruturas da GNR e da Justiça, esperando melhorias com novos investimentos e o sistema de videovigilância em instalação.
Crescimento económico e investimento
O autarca reconhece que atrair investimento nunca é fácil, mas sublinha que Braga o conseguiu por mérito próprio.
“As empresas escolhem Braga pela qualidade da sua população jovem e qualificada, não por incentivos fiscais”.
A cidade, diz, vive um “ciclo virtuoso” de crescimento, com mais empresas, mais residentes e mais emprego, ainda que isso traga desafios como o custo da habitação e a mobilidade.
Limpeza urbana e qualidade de vida
Questionado sobre críticas à limpeza urbana, respondeu: “Braga tem hoje níveis de limpeza como nunca teve. O novo sistema de contentores é muito mais eficaz do que deixar o lixo na rua”.
Reconheceu, porém, que “há freguesias que precisam de maior empenho” e que o desgaste das estradas “é natural com o aumento do trânsito e das condições meteorológicas”.
Família, emoção e balanço final
Rio afirmou nunca ter chorado no gabinete, nem se sentir injustiçado. “Temos de ter couraça e lastro para lidar com as críticas”.
Sobre a família, admitiu que o cargo trouxe sacrifícios, mas também aprendizagens: “As minhas filhas cresceram a ver o que é servir a cidade. Isso foi uma lição de vida para elas”.
Inspirado pelo avô, antigo vereador e figura cívica bracarense, Rio diz sair com sentimento de missão cumprida:“Foi um período entusiasmante da minha vida. Espero que Braga continue a ser a melhor cidade para viver em Portugal”.



