O Governo português assume, sem rodeios, que a expansão do Porto de Leixões foi desenhada para competir diretamente com os portos galegos, incluindo Vigo, e para funcionar como plataforma logística de referência para um universo de 14 milhões de pessoas.
O número ultrapassa em larga escala a população nacional — quase 10,75 milhões de habitantes, segundo o último censo do Instituto Nacional de Estatística (INE) referente ao ano fechado de 2024 — e confirma a ambição de Lisboa: transformar Leixões num porto com alcance regional ibérico.
A meta está inscrita no Plano Estratégico do Porto de Leixões 2025–2035 e foi reiterada esta semana pelo ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, que explicou que o novo terminal não se destina apenas ao mercado português. “Não só de Portugal, mas de todo o norte de Espanha”, afirmou, deixando claro que a infraestrutura pretende servir também a Galiza e outras regiões espanholas próximas.
O futuro terminal, que implicará um aterro com dimensão equivalente a 40 campos de futebol, será o centro da aposta nacional na carga contentorizada e no segmento de cruzeiros.
O secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Espírito Santo, classificou o projeto como “a joia da coroa”, expressão que ilustra a prioridade política e financeira atribuída à obra.
A estratégia não é nova, mas agora é assumida de forma explícita. No verão passado, durante a apresentação da Estratégia Porto 5+, em Lisboa, Miguel Pinto Luz já tinha defendido que Portugal devia colocar os portos no centro das políticas públicas e não escondia o objetivo de disputar tráfego a Espanha.
“Não escondemos que queremos competir com os portos espanhóis”, declarou na ocasião. A diferença é que, pela primeira vez, o Governo reconhece que o plano passa por absorver tráfego marítimo com origem em Espanha, com Leixões como porta de entrada privilegiada no Atlântico.
Os números ajudam a explicar o alcance da operação
O Porto de Vigo fechou o último ano com mais de 309 mil TEUs (unidade equivalente a um contentor de 20 pés), um recorde alcançado apesar das limitações de espaço e do facto de o ramal de Plisan ainda não estar operacional. Já Leixões movimentou 659.300 TEUs até novembro, consolidando-se como um dos principais portos portugueses no segmento da contentorização.
O novo terminal pretende elevar a capacidade para um milhão de TEUs antes de 2035 e chegar aos 1,6 milhões numa fase posterior. Para isso, o projeto prevê um cais com 860 metros e sete gruas Post-Panamax, capazes de operar navios de grande dimensão. O plano inclui ainda o aumento do calado para mais de 15 metros, permitindo receber navios entre 5.000 e 10.000 TEUs, uma capacidade que Leixões, na configuração atual, não consegue garantir de forma plena.
Investimento público de 220ME
O investimento público previsto ultrapassa os 220 milhões de euros, com a expectativa de ser complementado por capital privado através de concessões que poderão chegar aos 75 anos. No total, o esforço de modernização e expansão do porto é apresentado como um pacote superior a mil milhões de euros ao longo de uma década.
Apesar da dimensão do projeto, a obra não avança sem contestação local. A Câmara de Matosinhos, liderada por Luísa Salgueiro, já manifestou oposição ao modelo atual de expansão. Ainda assim, o ministro garante que o terminal é “essencial” e que o Governo não recuará. “
Vamos encontrar um ponto em comum entre as partes para encontrar soluções”, afirmou.
De acordo com a documentação entregue à Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a construção deverá arrancar em janeiro de 2028 e ficar concluída em agosto de 2032.
Até lá, Leixões prepara-se para entrar numa nova fase: a de porto de escala nacional, mas com ambição clara de disputar o papel de plataforma logística do Atlântico também à Galiza.



