Ontem fui a Coimbra de Alfa Pendular. Não por capricho, mas por dever. Tínhamos jantar de equipa com o plantel — pago com o dinheiro das multas que vai para a “caixinha” dos jogadores. Um daqueles rituais simples, mas importantes. Presença obrigatória.
Como tinha de regressar hoje a Lisboa, decidi ir novamente de transportes. Menos cansativo do que conduzir, pensei eu. Dormi num hotel e o plano era simples: sair de manhã, Alfa Pendular, casa.
Plano ingénuo.
O temporal decidiu outra coisa. Comboios interditos. Linhas cortadas. Zero hipótese. Restava o expresso.
De Coimbra até Pombal a viagem ainda correu sem sobressaltos. Mas ao chegar a Pombal… o cenário era difícil de descrever.
Uma cidade sem eletricidade, sem internet. Tudo fechado. Bombas de gasolina destruídas. Árvores no chão. Outdoors e sinais de trânsito arrancados. Parecia um filme pós-apocalíptico. Pessoas na rua com olhar perdido, aquele olhar de quem ainda está a tentar perceber o que aconteceu.
Depois da recolha de mais passageiros, seguimos viagem.
De Pombal a Leiria: 5 horas.
Cinco horas a atravessar um rasto de destruição brutal. Árvores tombadas, postes caídos, estradas condicionadas. A sensação constante de que estávamos a avançar por um território ferido.

Mas nem tudo foi destruição.
Logo desde Coimbra iam atrás de mim três jovens: duas raparigas e um rapaz. Uma delas falava alto. Muito alto. Como se o autocarro inteiro fosse um podcast dela. Usava vernáculo como se fossem vírgulas. Falava, falava, falava. Assuntos menores. Histórias de noites, de excessos. Falou que tinha ido ao Parlamento, que andava nos núcleos do Chega, das noitadas com “aquela malta”, da promiscuidade. Se era verdade ou fanfarronice, pouco importa.
Importava que, ao fim de hora e meia, aquilo era insuportável.
E havia ali, mesmo ao lado, uma criança de seis anos. Levantei-me. Olhei para trás e disse, com calma: “Podes dizer as alarvidades que tens para dizer, mas com menos asneiras por metro quadrado? Está aqui uma criança que não tem de ouvir isso.”
Ela respondeu:“E?” Respirei e devolvi: “E? Faz só a seguinte pergunta: achas que os teus pais ficariam orgulhosos se te estivessem a ouvir agora?”
Silêncio.
Algumas pessoas aplaudiram. Outras disseram “muito bem”. Houve quem risse. Ela calou-se. A partir daí falou mais baixo. Nunca mais disse um palavrão. Mission accomplished.
Mas a verdadeira magia veio depois.
Entre Pombal e Leiria ficámos cinco horas sem rede. Sem internet. Sem distrações. Sem fuga. As pessoas começaram a falar umas com as outras. A sério. Ajudámo-nos psicologicamente. E logisticamente.
À frente ia um miúdo de dez anos, na sua primeira viagem sozinho. A avó esperava-o em Lisboa. Não havia rede. Ele não conseguia ligar. Estava aflito. Apoiámo-lo todos. Tranquilizámo-lo. Fizemos dele responsabilidade coletiva.
Havia gente que perdeu voos. Outros com familiares, de certeza, preocupados. Falámos. Partilhámos histórias. Soube-se da vida uns dos outros. Criou-se uma energia rara, mesmo no meio da adversidade.
Quando finalmente parámos na estação de Leiria — ainda sem rede — fomos comer. E ali aconteceu outra coisa bonita: quem não tinha dinheiro físico, teve quem se oferecesse para pagar. Sem hesitação. Sem drama. Ninguém ficou desamparado.
Uma união natural. Humana. Espontânea.
Curiosamente, os únicos que ficaram à margem foram os mesmos três jovens do início. Mas mesmo aí houve um detalhe: enquanto eu estava na fila para pagar e a rapariga dos vernáculos foi ao WC, os outros dois aproximaram-se e pediram-me desculpa. Eu só lhes disse uma coisa: “Escolham melhor as vossas companhias. Isso impacta a vida de vocês.”
Subimos de novo ao autocarro. Fizemos o resto da viagem. Chegámos a Lisboa numa viagem de oito horas desde Coimbra, cansados, atrasados, mas inteiros. Sãos. De bem.
Nunca vou esquecer esta aventura. Nem o que ela me ensinou sobre as pessoas.
Quando tudo falha — rede, energia, planos, conforto — sobra o essencial. E, surpreendentemente, na maioria das vezes, o essencial aparece.

