Braga volta a entrar no mapa da neurociência internacional. Um estudo liderado por João Filipe Oliveira, investigador do ICVS/Escola de Medicina da Universidade do Minho, redefine o papel dos astrócitos, células cerebrais durante muito tempo vistas sobretudo como apoio aos neurónios.
O trabalho é publicado esta quarta-feira na revista Nature Neuroscience e junta investigadores dos Estados Unidos, Japão, Alemanha e outros países. A investigação aponta que os astrócitos não são estruturas passivas: participam em processos de sinalização intracelular, equilíbrio de neurotransmissores e comunicação direta com neurónios.
Estas células, com forma de estrela, parecem atuar em várias escalas do cérebro, desde dimensões microscópicas até redes mais amplas de tecido cerebral. Essa organização pode aumentar a capacidade do cérebro para processar informação, abrindo uma nova leitura sobre a forma como os circuitos neuronais funcionam.
Segundo João Filipe Oliveira, os astrócitos acumulam funções que foram subestimadas durante décadas e que podem mudar consoante a doença ou a sua evolução. O novo quadro conceptual pode ajudar a orientar investigação sobre doenças como Alzheimer, esclerose lateral amiotrófica e depressão.
O artigo também chama a atenção para uma limitação importante da neurociência atual: grande parte do conhecimento assenta em modelos de roedores, mas os astrócitos humanos são mais complexos. Por isso, os autores defendem modelos capazes de representar melhor essa realidade.
João Filipe Oliveira, natural de Monção, é coordenador da Rede Glial Portuguesa e investigador principal no ICVS, onde estuda o papel dos astrócitos nos circuitos cerebrais, comportamento, saúde e doença.
Em 2021, foi o único português entre cerca de 80 investigadores internacionais a assinar uma declaração de consenso sobre a reatividade dos astrócitos publicada na Nature Neuroscience.



