Benjamim Pereira e a frase que incendiou a habitação: “Não se pode exigir aos jovens os sacrifícios de outrora”
O presidente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), Benjamim Pereira, veio a público admitir que as expressões que utilizou sobre a capacidade de sacrifício dos jovens foram “infelizes”, mas garantiu que “nunca” sugeriu a emigração como solução para a crise habitacional.
A polémica estalou na quinta-feira, em Vila Nova de Gaia, quando Benjamim Pereira, questionado sobre os protestos pela habitação que têm abalado o Porto e Lisboa, afirmou: “Eu não sei se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício que os nossos pais e os nossos avós fizeram para ter uma casa” . O responsável recordou que os seus avós emigraram para o Brasil e para a Argentina e que o pai emigrou durante 20 anos, “sacrificou a vida”, para conseguir ter habitação própria.
“Não aludi, em momento algum, à emigração”
Perante a onda de críticas, Benjamim Pereira divulgou uma nota de esclarecimento esta sexta-feira. “Embora sem qualquer intenção, aceito não ter sido feliz em todas as expressões que utilizei”, afirmou, sublinhando que “em momento algum disse que os jovens não tinham dificuldades ou que não estavam a sofrer consequências com a carência de habitação” .
O presidente do IHRU explicou que o que fez foi “um paralelismo com o passado”, evidenciando que “a habitação sempre foi um problema neste país”. E acrescentou: “Não se pode exigir aos jovens de hoje os sacrifícios de outrora, o que significaria que nada tínhamos conseguido melhorar em mais de 50 anos de democracia” . Sobre a emigração, foi perentório: “Muito pelo contrário, não tivesse eu sofrido na pele a ausência dos familiares, exatamente nesse contexto de exigência que os forçou a sair” .
Ministro considera declarações “infelizes” e BE pede audição urgente
A reação do Governo não se fez esperar. O ministro das Infraestruturas e da Habitação, Miguel Pinto Luz, considerou as declarações “infelizes” e revelou ter pedido explicações ao responsável .
No Parlamento, o Bloco de Esquerda (BE) foi mais longe e requereu a audição urgente de Benjamim Pereira, pedindo mesmo a sua demissão. O deputado Fabian Figueiredo sustentou que “há uma geração em Portugal que não precisa de lições de sacrifício”, recordando que em 2025 os jovens portugueses saíam de casa dos pais, em média, aos 28,8 anos, e que os preços da habitação subiram 16,5% no segundo trimestre de 2026 . “Estas palavras não são uma opinião qualquer”, criticou o bloquista, sublinhando que o IHRU é o organismo responsável por gerir o Porta 65 Jovem e apoiar soluções cooperativas.
O contexto: uma vaga de protestos sem precedentes
A polémica surge num momento particularmente sensível. Desde 10 de outubro, o Movimento pelo Direito à Habitação tem promovido acampadas e manifestações no Porto e em Lisboa, exigindo a revogação da nova lei do arrendamento, o fim dos despejos, mais habitação pública e tetos às rendas . Os protestos já motivaram intervenções policiais, dezenas de feridos e detenções, e expandiram-se a outras cidades como Coimbra, Braga, Aveiro e Faro .
O Conselho Nacional de Juventude (CNJ) também reagiu, considerando que as palavras de Benjamim Pereira “estão desfasadas da realidade vivida pelos jovens” e que “transferem para uma geração a responsabilidade de uma crise habitacional que é estrutural”. “Os jovens portugueses já fazem sacrifícios todos os dias”, afirmou o presidente do CNJ, Francisco Garcia, acrescentando que “cerca de um em cada três jovens nascidos em Portugal vive hoje no estrangeiro, muitos por necessidade e não por escolha” .
Quem é Benjamim Pereira?
Benjamim Pereira foi presidente da Câmara de Esposende entre 2013 e 2024, eleito pelo PSD. Foi nomeado para a presidência do IHRU em setembro de 2024, através de uma resolução do Conselho de Ministros.
Em março de 2025, declarou-se “sempre à disposição do PSD” para assumir responsabilidades políticas locais não executivas, e em maio desse ano a concelhia do PSD de Esposende aprovou a sua candidatura à presidência da Assembleia Municipal.
A sua nomeação e a sua proximidade partidária têm sido apontadas pelo BE como um problema de imparcialidade, numa altura em que o IHRU é chamado a responder à maior crise habitacional das últimas décadas.















