Dormir na escuridão total pode ser mais do que uma questão de conforto. Um estudo recente associa a exposição à luz durante a noite a um risco significativamente maior de doenças cardiovasculares, a principal causa de morte em todo o mundo.
A investigação, publicada na revista científica JAMA Network Open, conclui que pessoas expostas a níveis elevados de luz enquanto dormem apresentam um risco 56% superior de insuficiência cardíaca. O mesmo grupo revelou ainda um risco 32% maior de doença arterial coronária, 28% de acidente vascular cerebral (AVC) e 47% de ataque cardíaco. O risco de fibrilação atrial, um distúrbio do ritmo cardíaco, foi também 32% mais elevado.
O estudo analisou dados de quase 89 mil participantes, com idade média de 62 anos, integrados no projeto UK Biobank, que acompanha indicadores de saúde no Reino Unido desde 2006.
Entre 2013 e 2022, os participantes usaram durante uma semana dispositivos no pulso que mediam a intensidade da luz entre as 00h30 e as 06h00. Depois disso, foram acompanhados durante cerca de nove anos para avaliar o surgimento de problemas de saúde.
Segundo Daniel Windred, investigador da Universidade de Flinders, na Austrália, trata-se do maior estudo conhecido a estabelecer uma ligação de longo prazo entre exposição individual à luz noturna e risco cardiovascular. Ao todo, foram analisadas 13 milhões de horas de dados de luz.
A explicação pode estar nos ritmos circadianos, ciclos biológicos de 24 horas que regulam o sono, a vigília e várias funções do organismo, incluindo o sistema cardiovascular. A luz durante a noite pode bloquear a produção de melatonina, hormona essencial para o sono, desregulando este relógio interno.
Os investigadores sublinham que o estudo não prova uma relação de causa-efeito, mas as associações mantiveram-se mesmo após ajustamentos para fatores como atividade física, tabagismo, álcool, dieta ou trabalho por turnos. A curta duração do sono só influenciou alguns resultados, como os relacionados com o AVC.
Apesar das limitações — nomeadamente o facto de 97% dos participantes serem brancos e o curto período de monitorização da luz — os autores defendem que os dados são consistentes com estudos anteriores.
Para reduzir a exposição à luz durante a noite, os especialistas recomendam desligar luzes desnecessárias, limitar o uso de ecrãs antes de dormir, optar por iluminação fraca e quente, usar cortinas opacas e evitar dispositivos luminosos no quarto.




