O antigo presidente do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos, conhecido como “Chicão”, anunciou esta quarta-feira, 4 de novembro, a sua desfiliação do partido que liderou entre 2020 e 2022.
A decisão, comunicada numa carta dirigida ao atual presidente, Nuno Melo, e partilhada nas redes sociais, marca o fim de uma ligação política iniciada há quase 20 anos.
“Deixo de ser militante do CDS. Continuo a ser democrata-cristão”, escreveu o antigo dirigente, justificando a saída com aquilo que considera ser um afastamento do partido relativamente aos princípios de moderação, responsabilidade e sensibilidade social que procurou afirmar durante a sua liderança.
Críticas à radicalização e ao rumo do CDS
Na longa reflexão publicada nas redes sociais, o antigo líder centrista manifesta preocupação com aquilo que descreve como uma deslocação progressiva do debate político para a direita, marcada pela influência de discursos identitários, correntes ultraconservadoras e posições que considera socialmente insensíveis.
Na sua perspetiva, o CDS acompanhou essa tendência, afastando-se da orientação que tentou imprimir ao partido durante a sua presidência.
Rodrigues dos Santos considera que o centro-direita moderado e humanista perdeu espaço no CDS, dando lugar a uma linha política com a qual já não se identifica.
O antigo dirigente defende que a iniciativa privada, a liberdade económica e a criação de riqueza devem continuar a ser valorizadas, mas sem descurar o combate às desigualdades, o acesso à habitação e a proteção de quem trabalha e permanece em situação de pobreza.
“Hoje é mais acertado definir-me como um centrista”
Um dos aspetos mais marcantes da declaração é a forma como Francisco Rodrigues dos Santos reposiciona publicamente a sua identidade política.
Depois de anos associado à defesa da chamada “direita certa” e da “direita social”, o antigo presidente do CDS afirma identificar-se hoje sobretudo com o centrismo, entendido como um espaço de equilíbrio entre a liberdade individual, a solidariedade e a justiça social.
Admite também que a sua leitura da sociedade evoluiu ao longo dos últimos anos, particularmente depois de ter deixado as responsabilidades partidárias.
Para Rodrigues dos Santos, a coerência política não exige imobilismo, mas capacidade de adaptar as respostas aos desafios de cada momento, mantendo os princípios fundamentais.
Neste contexto, defende uma maior atenção a valores tradicionalmente associados ao centro-esquerda democrático, sem abandonar a defesa da economia de mercado e da iniciativa privada.
Uma despedida sem romper relações pessoais
Apesar das críticas à orientação do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos procura afastar a ideia de uma rutura pessoal com os antigos companheiros de partido.
Na mensagem, reconhece a legitimidade das escolhas feitas pela atual direção e sublinha que as divergências políticas não devem colocar em causa o respeito mútuo.
O antigo dirigente deixa ainda palavras de gratidão aos militantes e dirigentes com quem partilhou quase duas décadas de atividade política, afirmando que pretende conservar as amizades construídas ao longo desse percurso.
A saída representa um novo capítulo no percurso político de Francisco Rodrigues dos Santos, que reafirma a sua ligação à tradição democrata-cristã europeia, agora fora da estrutura partidária do CDS.
A desfiliação não foi acompanhada do anúncio de adesão a outro partido ou de um novo projeto político.













