Não têm cara de quem trabalha”, “precisam de tomar banho”, “bandalhos”, “aberrações”, “drogados”, etc.
Estes foram alguns dos adjetivos, ou melhor, insultos, com que vários interlocutores do espectro da Direita portuguesa caracterizaram, na última semana, os participantes nos protestos pela habitação.
Entendo o medo de muitos desse campo político.
Pela primeira vez nos últimos dois anos, a Direita portuguesa parece ter perdido o controlo da dinâmica noticiosa e deixado de dominar a narrativa do senso comum nos meios de comunicação. Ficou associada àqueles que consideram que uma Lei das Rendas praticamente inalterável é a resposta adequada ao problema e que uma força policial, ao ouvir insultos durante uma manifestação pacífica, deve responder à bastonada.
Há, porém, uma questão que me assola: se responder a insultos com bastonadas fizer escola, como procederemos nos jogos da I Liga de futebol? Voltaremos a ter bancadas vazias, como durante a pandemia de COVID-19?
A reação não é apenas circunstancial. Uma parte da Direita parece acreditar que, para travar o crescimento do Chega, deve imitar a sua linguagem e agressividade. O problema é que, enquanto disputa esse território, deixa por responder à pergunta essencial: que soluções apresenta para a habitação?
Uma parte significativa da Direita parece disposta a mimetizar o comportamento habitualmente agressivo e histriónico da extrema-direita portuguesa, adotando-o como forma de combate político, como reação preferencial às manifestações e como prova da sua própria existência política.
A associação, feita por Paulo Núncio, do CDS, entre os protestos pela habitação e as celebrações do 25 de Novembro revela sobretudo uma tentativa de deslocar o debate: em vez de se discutirem rendas, salários e oferta pública, regressa-se ao confronto simbólico em torno da história política portuguesa.
Conheço pessoalmente alguns dos manifestantes que estiveram na Praça D. João I. Muitos trabalham com vínculos precários e fazem turnos em call centers ou em hospitais. Alguns percorreram dezenas de quilómetros e reduziram as horas de sono ao mínimo para poderem estar presentes.
É gente que sabe o que significa fazer o turno da noite numa fábrica, não receber o salário a tempo, ser despedida no final do período experimental ou sobreviver com o salário mínimo. Gente que se desloca de autocarro ou de metro e que, ao chegar a casa, ainda tem de descobrir como conseguirá arranjar 900 euros para pagar a renda.
É gente que não foge aos impostos, não tem empresas de consultoria beneficiárias de ajustes diretos e não recebeu património familiar para facilitar o início da sua vida adulta.
Foi por isso que fiquei chocado quando vi antigos e atuais responsáveis políticos, de âmbito nacional, regional e até local, incluindo em Esposende, cuja experiência profissional relevante decorreu sobretudo da política ou de funções associadas a ela, chamarem a estas pessoas uma “cambada de desempregados e desocupados”.
É difícil aceitar lições sobre trabalho vindas de quem nunca teve de entrar às cinco da manhã, cumprir um turno de doze horas e fazer contas para saber se conseguirá pagar a renda.
Depois de uma semana de insultos, continua por responder a única pergunta que realmente importa: que propostas tem a Direita para a crise da habitação? Vai rever a Lei das Rendas, acelerar a construção de habitação pública, limitar a pressão do alojamento local e combater a especulação imobiliária? Ou continuará a discutir a aparência, o cheiro e a vida profissional de quem protesta?
Desqualificar manifestantes é fácil. Construir uma política de habitação é mais difícil.
Mas é precisamente para isso que os partidos existem.















