A pressa no regresso aos treinos pode comprometer a saúde musculoesquelética. Cristiano Silva, fisioterapeuta, alerta para a necessidade de controlo rigoroso do esforço.
No âmbito da rubrica O Próximo Passo, dinamizada pelo e24 com o apoio da Clínica Octávio Dimas, abordamos esta semana os impactos fisiológicos e os riscos associados ao regresso à atividade física após períodos de inatividade. O entusiasmo que habitualmente acompanha a retoma do exercício oculta, com frequência, um erro de diagnóstico por parte dos praticantes: a convicção de que o organismo conserva a capacidade de resposta anterior à pausa. Contudo, tecidos como músculos, tendões e ligamentos sofrem perdas funcionais significativas durante a inatividade, tornando-se vulneráveis a estiramentos, ruturas musculares, tendinites, fraturas de stress e quadros severos de dor muscular tardia.
A fisiologia da gestão do esforço
Para mitigar a ocorrência de lesões, a evidência na área da saúde e da reabilitação aponta para o controlo de carga como a ferramenta central. Trata-se do processo sistemático de monitorização e ajuste do esforço aplicado, procurando o equilíbrio entre o estímulo físico do treino e a capacidade de regeneração do organismo.
Cristiano Silva, fisioterapeuta da Clínica Octávio Dimas, explicita a métrica de segurança recomendada para esta fase transicional:
“O regresso ao exercício físico deve ser iniciado com treinos com cerca de 50 a 60% do volume e carga que usava antes da paragem.” — Cristiano Silva, fisioterapeuta da Clínica Octávio Dimas.
Do ponto de vista prático, este controlo exige a quantificação contínua de variáveis como a distância percorrida, a velocidade de execução ou a sobrecarga externa aplicada. O objetivo é evitar picos de esforço súbitos que conduzam à acumulação excessiva de fadiga e ao consequente colapso das estruturas teciduais.
Antes do reinício de qualquer plano de treino, o especialista defende a realização de uma avaliação funcional detalhada. A análise quantitativa e qualitativa de fatores como a postura, a flexibilidade, a mobilidade articular, a força e o equilíbrio muscular permite estabelecer a linha de base do praticante, adequando o volume e a intensidade às reais capacidades do indivíduo.

A interdependência das variáveis do treino
A progressão do rendimento desportivo assenta na manipulação de três variáveis fundamentais: frequência, volume e intensidade. No entanto, a sobreposição do aumento destas métricas constitui um dos fatores de risco mais documentados no aparecimento de lesões por sobreuso. O fisioterapeuta adverte para os perigos desta prática no planeamento do exercício:
“Um erro que nunca devemos cometer é aumentar a carga e a duração na mesma sessão de treino.”— Cristiano Silva, fisioterapeuta da Clínica Octávio Dimas.
A corrida serve como modelo ilustrativo deste fenómeno. Enquanto os sistemas cardiovascular e muscular manifestam uma capacidade de adaptação e recuperação relativamente rápida, estruturas tendinosas, como o tendão de Aquiles, requerem períodos de remodelação biológica mais prolongados. A subestimação dos primeiros sintomas dolorosos e o aumento contínuo da carga podem culminar em quadros clínicos graves, incluindo a rutura do tendão e processos de reabilitação prolongados.
Diagnóstico precoce dos sinais de alerta
A prevenção eficaz de lesões depende igualmente da capacidade de interpretação dos sinais assinalados pelo organismo. Quebras injustificadas no rendimento físico, a sensação persistente de fadiga nos membros inferiores e a permanência de dores musculares além dos prazos fisiológicos normais constituem indicadores claros de sobrecarga adaptativa.
Sempre que a dor apresente características de localização específica e altere a biomecânica natural do movimento, o exercício deve ser interrompido. Cristiano Silva define o critério para a intervenção clínica especializada:
“Se existir uma dor localizada que altere a forma natural de se movimentar, aí sim deve recorrer a um fisioterapeuta.”— Cristiano Silva, fisioterapeuta da Clínica Octávio Dimas.
A promoção da atividade física permanece um pilar central da saúde pública; no entanto, a retoma pós-paragem exige uma abordagem fundamentada na consistência, no fortalecimento muscular, na variação de estímulos e no respeito pelos períodos de recuperação, garantindo que o progresso físico ocorra de forma sustentável e isenta de patologia.










