O “Testamento da Gata” continua a ser um dos fenómenos mais particulares da cultura académica minhota: sátira, ajuste de contas, crónica política e memória coletiva condensadas num formato popular que atravessa gerações.
A edição de 2026, intitulada “As Gatas Silenciadas”, confirma isso mesmo e pode ser lida aqui.
A origem destas monumentais gestas académicas cruza-se com o ambiente estudantil que nasceu e se consolidou em Braga, muito ligado ao velho Liceu Sá de Miranda, berço de elites culturais, políticas e académicas da cidade. O espírito irreverente, crítico e boémio que marcou sucessivas gerações de estudantes bracarenses acabou transplantado para a Universidade do Minho e para a AAUM, transformando o Enterro da Gata numa espécie de palco anual de catarse pública.
O “Testamento” funciona como um documento semi-clandestino da academia. Não é jornalismo, não é literatura formal e não é apenas humor. É uma tradição oral transformada em panfleto escrito. Um género próprio. Através da caricatura, do insulto satírico e da quadra mordaz, a academia expõe rivalidades, acusações, ressentimentos e jogos de poder.
A edição de 2026 centra-se sobretudo na crise de liderança da AAUMinho, na governação da Universidade do Minho e na política local de Braga e Guimarães. Há um padrão evidente: a destruição simbólica das figuras de autoridade. O presidente da AAUM é retratado como incapaz de cumprir promessas, sobretudo a reabertura do Bar Académico, um tema recorrente ao longo do documento.
O Bar Académico surge quase como metáfora da decadência do associativismo estudantil. No imaginário académico minhoto, o BA nunca foi apenas um bar. Era território político, cultural e identitário. O encerramento representa, para muitos estudantes, o fim de uma era de centralidade da academia enquanto força mobilizadora.
Outro eixo forte do texto é a crítica à profissionalização da política universitária. O documento acusa dirigentes académicos e elementos da reitoria de viverem numa lógica de cargos, assessorias, comunicação de imagem e sobrevivência institucional. A sátira assume frequentemente um tom brutal, sem filtros, típico destas tradições académicas antigas.

Também a política bracarense é alvo constante. Ricardo Silva (“Ricky Silva”), Pedro Arezes (“Pedrinho às Vezes”), João Granja(Granjinhos), Ricardo Rio (“Ricky Riu”), João Rodrigues (“Jony Gasolinas”), Carlos Silva (Charles Trop) e várias figuras locais aparecem transformados em personagens grotescas, seguindo uma tradição antiga do Enterro: atacar os poderes instalados sem distinção entre esquerda, direita, universidade ou autarquias.
Há ainda um elemento importante: o “Testamento da Gata” serve como arquivo informal da academia. Muitas referências só fazem sentido para quem viveu determinados episódios, eleições, polémicas ou guerras internas. Isso aproxima o documento das antigas “folhas satíricas” académicas do século XIX.
O legado vindo do Liceu Sá de Miranda percebe-se precisamente aí: na mistura entre cultura literária, ironia política, boémia e espírito iconoclasta. Braga sempre teve uma tradição de elites estudantis muito interventivas e sarcásticas. O Enterro da Gata herdou esse ADN.
Apesar das críticas recorrentes sobre excessos, linguagem ofensiva e ataques pessoais, o “Testamento” mantém relevância porque continua a cumprir uma função rara: dizer publicamente aquilo que muitos comentam apenas nos corredores da academia.



