Décima edição decorre de 13 a 21 de novembro e reúne 10 espetáculos em 12 representações. Pela primeira vez, o festival apresenta em palco um artista com deficiência.
O Festival de Teatro de Viana do Castelo regressa entre 13 e 21 de novembro para a sua 10.ª edição, com uma programação que reúne 10 espetáculos em 12 representações, no Teatro Municipal Sá de Miranda e noutros espaços da cidade.
A apresentação do programa decorreu em Viana do Castelo e contou com a presença de responsáveis do Teatro do Noroeste – Centro Dramático de Viana e da Câmara Municipal de Viana do Castelo, que destacaram uma edição marcada pela diversidade artística, pela acessibilidade e pela aproximação às escolas.
Ao longo das nove edições anteriores, o festival apresentou cerca de 100 espetáculos, com companhias de todo o país e da vizinha Galiza, além de participações pontuais de outros países, reunindo, em média, cerca de 2.000 espectadores por edição.

Um festival que quer ir além da programação
Para Ricardo Simões, diretor do Festival de Teatro, os dez anos representam também um momento de reflexão sobre o caminho percorrido e sobre o futuro da iniciativa.
“Temos feito coisas bem-feitas, outras que temos de ir melhorando, mas gostava mesmo de me focar e encarar este futuro pensando no festival como um livro na última década e que agora tem tudo pela frente”, afirmou.
O responsável admite que a próxima edição poderá trazer alterações na estrutura do festival, nomeadamente ao nível das datas e dos formatos, numa tentativa de evitar a repetição de fórmulas.
“Não queremos estar em risco de estar a repetir fórmulas”, explicou, defendendo a necessidade de continuar a criar uma programação que leve novos públicos ao teatro.

Acessibilidade ganha novo significado
Uma das principais novidades desta edição é a presença, pela primeira vez, de um artista com deficiência em palco, o ator Paulo Azevedo, que integra o espetáculo “O Tamanho das Coisas”, da Terra Amarela – Criação Artística Inclusiva, com direção de Marco Paiva.
A inclusão através da acessibilidade é, aliás, uma das características assumidas pelo festival desde as primeiras edições.
“Uma das marcas do Festival de Teatro é a acessibilidade, estamos sempre a trabalhar para nos adaptarmos aos desafios da acessibilidade”, explicou Ricardo Simões.
O festival disponibiliza recursos como legendagem em português e inglês, Língua Gestual Portuguesa e audiodescrição, procurando garantir condições de acesso aos diferentes públicos.
Mas, segundo o diretor, a inclusão não pode ficar apenas pelos recursos de acessibilidade destinados aos espectadores.
“Ao fim de nove anos, percebemos que ainda não tínhamos programado um espetáculo com artistas com deficiência”, afirmou, considerando que a questão serviu também para repensar o próprio conceito de inclusão.
“Há artistas profissionais e que, de pleno direito, têm as suas obras e têm direito a ter uma plataforma para as suas obras”, acrescentou.
Teatro para as escolas e escolas no teatro
A relação com o público escolar é outro dos eixos da edição deste ano.
Um dos destaques é “Só Eu É Que Não Tenho!”, de Adriel Filipe, que inicia uma digressão pelas escolas do concelho e terá 52 representações dirigidas sobretudo aos alunos do 2.º ciclo.
A peça aborda questões relacionadas com o ter e o não ter, recorrendo a uma linguagem próxima dos mais jovens e a elementos de clown, humor e circo.
A preocupação com a formação de públicos começa, contudo, antes da chegada dos alunos ao teatro.
Segundo Ricardo Simões, o trabalho desenvolvido com as escolas passa também por processos de mediação, com preparação prévia dos professores e conteúdos de apoio às peças.
“Para nós, o projeto cultural com as escolas é uma das grandes preocupações e é a mediação”, explicou.
A intenção, acrescentou, é evitar que a ida ao teatro seja encarada como uma atividade isolada, procurando estabelecer uma relação com aquilo que é trabalhado em contexto escolar.
“Não é uma sobremesa ou uma alface que se coloca nas escolas, mas é uma coisa que interage com aquilo que são as aprendizagens no contexto da sala de aula”, destacou.

“Ensaio sobre a Lucidez” leva Saramago ao palco
Entre os espetáculos programados está “Ensaio sobre a Lucidez”, da Companhia do Chapitô, com encenação de José C. Garcia, apresentado nos dias 17 e 18 de novembro.
A produção parte do romance de José Saramago, centrado numa sociedade em que a maioria dos cidadãos decide votar em branco e nas consequências políticas e sociais dessa decisão.
A adaptação cruza o universo do escritor português com uma linguagem marcada pelo teatro físico e pelo humor, características associadas ao trabalho da companhia.
“Entrelinhas” leva Tiago Rodrigues e Tonán Quito à Sala Experimental
Outro dos destaques é “Entrelinhas”, uma cocriação de Tiago Rodrigues e Tonán Quito, apresentada nos dias 18 e 19 de novembro.
O espetáculo, interpretado por Tonán Quito, parte do universo biográfico de Tiago Rodrigues e explora a fronteira entre memória, realidade e ficção.
A apresentação terá lugar na Sala Experimental, com capacidade para 67 espectadores, incluindo uma componente de participação do público.

Companhia galega integra programação internacional
A dimensão internacional está representada por “Dolce far niente”, de Lucía Satta, apresentado pela Desattada/Centro Dramático Galego, no dia 19 de novembro.
A produção surge no âmbito da cooperação mantida entre o festival e estruturas culturais galegas.
A peça aborda o universo laboral de dois jovens que trabalham numa cadeia de franchising, utilizando esse contexto para refletir sobre as condições de trabalho e alguns dos efeitos associados ao modelo económico contemporâneo.
Festival encerra com criação participativa
A programação termina no dia 21 de novembro, com “Esta noite improvisa-se com Bergman”, de Mónica Calle, pela Casa Conveniente/Zona Não Vigiada.
O espetáculo cruza a obra “Esta Noite Improvisa-se”, de Luigi Pirandello, com o imaginário cinematográfico de Ingmar Bergman.
A criação será acompanhada por uma residência artística no Teatro Municipal Sá de Miranda, durante a qual membros da comunidade poderão participar numa oficina de cinco dias com o coletivo artístico e integrar posteriormente o espetáculo.
Município apoia festival com 37.800 euros
A realização da 10.ª edição conta com um apoio municipal de cerca de 37.800 euros, através do Contrato-Programa de Desenvolvimento Cultural celebrado com o Teatro do Noroeste.
O vice-presidente e vereador da Cultura, Manuel Vitorino, considera que o festival é um evento com “créditos firmados” e uma oportunidade para afirmar o Teatro Municipal Sá de Miranda como um importante polo de arte contemporânea.
Durante a apresentação, Ricardo Simões reconheceu a importância do apoio municipal e destacou também o contributo logístico da autarquia e de outros parceiros para a concretização da programação.
Dez anos, mais de 100 espetáculos
O balanço apresentado pela organização aponta para cerca de 100 espetáculos realizados ao longo das nove edições anteriores, com uma média de aproximadamente 2.000 espectadores por edição.
Para Ricardo Simões, o futuro passa agora por continuar a questionar o próprio modelo do festival e pela capacidade de conquistar públicos que habitualmente não frequentam as salas de teatro.
“Nós trabalhamos muito na nossa bolha. Eu costumo dizer aos meus colegas que nós achamos que somos muito importantes, mas não somos. Nós somos uma parte”, afirmou.
O desafio, concluiu, passa por transformar a curiosidade em vontade de participar: “Como é que nós continuamos essa necessidade, essa curiosidade, e a transformamos em ação, em que as pessoas queiram vir”.
Programação do 10.º Festival de Teatro de Viana do Castelo
- 13 de novembro, 21h30 — “A Menina”, encenação de Rita Lello, Teatro do Noroeste – Centro Dramático de Viana.
- 14 de novembro, 16h00 — “O Despertar das Borboletas”, de Ricardo Ribeiro, Teatro do Noroeste – Centro Dramático de Viana.
- 15 de novembro, 19h00 — “Os Lusíadas”, de António Fonseca, Companhia Nacional de Espetáculos.
- 16 de novembro, 21h30 — “Veneno”, encenação e direção de Albano Jerónimo, Teatro Nacional 21.
- 17 de novembro, 21h30 — “Ensaio sobre a Lucidez”, encenação de José C. Garcia, Companhia do Chapitô.
- 18 de novembro, 11h00 e 15h30 — “Ensaio sobre a Lucidez”, Companhia do Chapitô.
- 18 de novembro, 21h30 — “Entrelinhas”, cocriação de Tiago Rodrigues e Tonán Quito, Homembala.
- 19 de novembro, 18h30 — “Entrelinhas”, Homembala.
- 19 de novembro, 21h30 — “Dolce far niente”, de Lucía Satta, Desattada/Centro Dramático Galego.
- 20 de novembro, 21h30 — “O Tamanho das Coisas”, direção de Marco Paiva, Terra Amarela.
- 21 de novembro, 11h00 — “Só Eu É Que Não Tenho!”, de Adriel Filipe, Teatro do Noroeste – Centro Dramático de Viana.
- 21 de novembro, 19h00 — “Esta Noite Improvisa-se com Bergman”, de Mónica Calle, Casa Conveniente/Zona Não Vigiada.
















