Aproveitemos. O Verão está a acabar e, fora os últimos dias, tem estado extraordinário para os banhistas do litoral Norte. Comparativamente menos nortada e água do mar bem mais quente. Há que agradecer à providência e às alterações climáticas. Ou não.
Decidi, enquanto Provedor do Clima, lançar o meu último aviso, para não chatear mais e estragar as férias, para quem ainda as tem. Ou talvez porque esteja cansado de falar para o boneco. Ultrapassando a procrastinação, fui ler os últimos relatórios sobre as alterações climáticas, na procura de uma resposta à questão: ainda vamos a tempo de evitar o pior, ou já passamos o ponto de não retorno?
Dois esclarecimentos iniciais: (1) todos os esforços de ação climática valem sempre a pena e evitam mortes prematuras, (2) ponto de não retorno implica entrarmos definitivamente e de forma voluntária numa nova era climática que irá ditar o fim do mundo tal qual o conhecemos e comprometer a nossa descendência.
Os sinais que vemos são terríveis e crescentemente mortais, em particular na Europa. Ondas de calor que se sucedem, cada vez mais intensas e incendiárias, intercaladas por tempestades que alagam e deitam abaixo casas e árvores. O grande motor e amortecedor do clima, que são os oceanos, bateu o recorde absoluto de temperatura à superfície no passado sábado. Este recorde, em pleno mês de agosto, é particularmente significativo já que tipicamente o oceano está mais quente em março e abril, após o Verão no hemisfério Sul, onde se concentra a maior superfície oceânica. E o El Niño ainda está a arrancar…
A figura abaixo comprova que já estamos na zona de perigo (fonte). A morte global dos corais tropicais (primeiro ponto sem retorno) coloca já em risco a biodiversidade e a sobrevivência de centenas de milhões de pessoas que dependem deles.

As políticas atuais levam-nos alegremente para a zona de não retorno, que implica a subida do nível do mar em vários metros e um provável inverno polar permanente no Norte da Europa – com redução da precipitação no Mediterrâneo – devido ao colapso das correntes oceânicas no Atlântico que nos trazem o calor dos trópicos. Isto e muito mais, já que, mantendo o rumo, iremos assistir a fenómenos destrutivos em cascata, autoalimentando-se uns aos outros (e por isso com carácter irreversível).

Nos piores cenários (evitáveis!), estaremos a falar de 4 mil milhões de mortes na segunda metade do século XXI e perda de 50% do PIB mundial, de acordo com os analistas financeiros (fonte). Imagem da campanha cidadã “4 mil milhões de mortes”.
Tarde demais? Ainda não, se acreditarmos em milagres (e eu acredito). De forma simplificada, temos de aumentar exponencialmente os sumidouros de carbono e baixar para metade as emissões globais de gases com efeito de estufa até 2030 (amanhã) e atingir a neutralidade carbónica até 2050. Praticamente todas as políticas atuais estão a levar-nos no sentido oposto, por isso apenas uma mudança profunda e imediata na governança global, nacional e regional nos pode salvar.
Publiquei este ano o livro “Um Mundo sem políticos, uma proposta democrática para depois do colapso”. Sintomaticamente, entretanto saíram os livros “Democracia sem políticos, governo pelo povo” e “Política sem políticos: a defesa do governo cidadão”. Ainda não os li, mas desconfio que a tese é a mesma. Apenas se os cidadãos e as comunidades assumirem o leme do nosso destino seremos capazes de sobreviver.

Novamente os sinais não são positivos, já que os agentes de mudança, em vez de serem apoiados, estão a ser criminalizados. A Bianca Castro, ativista climática de 25 anos, foi recentemente condenada a um ano e meio de pena suspensa por ter participado de uma ação simbólica: plantar sobreiros nos terrenos onde será construído o novo aeroporto. Um exemplo entre muitos.
São os interesses económicos de curto prazo que nos governam: 94% dos portugueses consideram que a corrupção é um problema generalizado no país, mais 3 pontos do que há um ano e 23 pontos acima da média da União Europeia (dados do Eurobarómetro). O relatório “Desbloquear o Crescimento de Portugal”, elaborado pelo Prémio Nobel da Economia James A. Robinson e pelo economista Nuno Palma e encomendado pela CIP – Confederação Empresarial de Portugal, alerta que o país enfrenta uma “catástrofe silenciosa” devido a instituições fracas e a um modelo baseado no “compadrio” e nas “cunhas”. Não, não é uma questão de economia versus ambiente. É o bem comum versus oligarcas predadores.
Ainda vamos a tempo de resgatar a nossa democracia e salvar o futuro? A janela de oportunidade está praticamente fechada, é certo, mas a luz ainda entra pela fresta. De uma forma ou de outra, iremos ser forçados a encarar a verdade dos tempos e vir para as ruas lutar pelo futuro dos nossos filhos. Não volto a avisar.

“O apelo de viver a verdade aumentou novamente no século XXI, quando a hipocrisia social atingiu um novo auge. Mas o discurso sem medo, tal como antes, só pode ser proferido a partir de uma posição de independência radical. A tragédia do cínico moderno é ver que o imperador está nu, e continuar a aplaudir porque as alternativas lhe parecem piores ou impossíveis.” Rafael Baptista, Jornal MAPA. Imagem RiseUP Portugal















