A crise do petróleo está longe de ser incurável. As guerras fazem disparar os preços, mas não conseguem necessariamente destruir a capacidade de adaptação do mercado. E 2027 poderá marcar uma viragem na energia europeia.
Os números mais recentes ajudam a perceber porquê. Segundo dados da Kpler publicados pelo Wall Street Journal a 20 de outubro, as exportações de petróleo do Golfo Pérsico, incluindo as rotas alternativas, ultrapassaram os níveis anteriores à guerra. Na semana terminada a 18 de outubro, saíram da região mais de 24 milhões de barris por dia. Antes da guerra eram 23,3 milhões.
Também o tráfego através de Ormuz recuperou substancialmente. Incluindo as transferências de petróleo entre navios ao largo de Omã, os fluxos atingiram cerca de 14 milhões de barris diários. São aproximadamente 82% dos níveis anteriores à guerra. Os oleodutos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos ajudaram a contornar o estreito. Em setembro, cerca de 40% do crude não iraniano exportado do Golfo passou por rotas alternativas, contra 17% antes da guerra.
Os Estados Unidos foram fundamentais para esta adaptação. A proteção militar e a organização de corredores de navegação permitiram manter os petroleiros em movimento, apesar dos ataques iranianos. O risco não desapareceu mas os números contrariam a ideia de que a guerra tornou impossível recuperar os fluxos de petróleo. O mercado encontrou uma resposta operacional.
Agora, a questão é saber se a recuperação do abastecimento pode coincidir com um segundo movimento: o aumento da oferta proveniente do Mar do Norte.
Não estamos a falar apenas do Reino Unido. A Noruega é já um fornecedor estratégico de petróleo e gás para a Europa. Do lado britânico, a produção caiu mais de 70% desde o pico de 1999. Novos projetos podem ajudar a travar este declínio e a aproveitar melhor as infraestruturas existentes.
O primeiro sinal surgiu com a aprovação do campo de gás de Jackdaw, em outubro. Mas o projeto mais relevante para o mercado petrolífero é Rosebank. Situado a noroeste das ilhas Shetland, tem recursos recuperáveis estimados em cerca de 300 milhões de barris. A primeira fase prevê uma produção de aproximadamente 64 mil barris de petróleo por dia no nível de produção esperado.
O projeto continua a aguardar uma nova aprovação regulatória, após a decisão judicial que invalidou a autorização anterior. Os operadores apontam para o primeiro semestre de 2027 como objetivo para o início da produção, caso recebam luz verde. Se Rosebank avançar, poderá representar cerca de 8% da produção petrolífera britânica nos primeiros anos.
A Agência Internacional de Energia prevê uma recuperação da oferta mundial em 2027, depois da forte contração de 2026. A mesma agência estima que o consumo mundial de petróleo em 2027 permaneça cerca de 620 mil barris por dia abaixo do nível de 2025.
A conjugação dos fatores é importante. O petróleo do Golfo está a voltar aos mercados. As rotas alternativas funcionam. A produção mundial poderá recuperar. E o Mar do Norte tem capacidade para acrescentar oferta.
Os efeitos para a Europa seriam concretos. O Banco Central Europeu identifica dois mecanismos fundamentais de transmissão dos preços da energia à inflação: o efeito direto nos combustíveis e o efeito indireto sobre os custos de produção, transporte, distribuição e serviços.
Uma redução sustentada do preço do petróleo também melhora os termos de troca da Zona Euro, que é importadora líquida de energia. Diminui a transferência de rendimento para os países exportadores e reforça o rendimento real das famílias e as margens das empresas. Isso cria melhores condições para recuperar o consumo, o investimento e a competitividade industrial.
Portugal pode beneficiar mesmo sem importar petróleo diretamente do Reino Unido ou da Noruega. O crude é negociado num mercado internacional. Uma oferta mais abundante e custos de transporte menos pressionados podem reduzir os preços de referência relevantes para as refinarias e aliviar a fatura energética das famílias e das empresas portuguesas.
A União Europeia tem, por isso, de lutar para que os recursos do Mar do Norte possam ser explorados. Deve cooperar com o Reino Unido e a Noruega, e evitar que decisões políticas impeçam o desenvolvimento de projetos capazes de reforçar a oferta europeia.
Se Bruxelas seguir o caminho contrário e combater a produção destes recursos sem considerar os custos económicos, estará a agir contra os interesses dos cidadãos e da indústria europeia. Estará a dificultar a redução da inflação, a recuperação do poder de compra e a competitividade de toda a Zona Euro.















