Nikita Khrushchev, líder da União Soviética entre 1953 e 1964, poderia ter sido recordado por muitas coisas, mesmo muitas coisas, mas a sua maior herança foi a habitação.
A nível político, suceder a Estaline foi mais uma oportunidade do que um problema. Substituir o homem que derrotou Hitler nunca seria fácil, mas Khrushchev soube aproveitar a conjuntura para promover a destalinização do país e iniciar o chamado «degelo de Khrushchev», um período de maior abertura ao exterior e de maior liberdade para artistas, escritores e intelectuais, que ficou também marcado pela libertação de milhares de presos dos gulags, entre outras medidas.
Numa outra vertente, o seu mandato ficou marcado por diversos momentos históricos.
Modernizou o Exército Vermelho, transformando a União Soviética numa potência nuclear; contribuiu para consolidar um dos sistemas nacionais de saúde mais abrangentes do mundo; provocou um choque tecnológico e de gestão na economia soviética, levando-a a afirmar-se como uma verdadeira concorrente à escala mundial e a encarar com seriedade a possibilidade de ultrapassar a economia americana.
E, acima de tudo, foi durante o seu mandato que a União Soviética enviou para o espaço o primeiro satélite artificial, o primeiro homem e a primeira mulher.
Em resumo, consolidou a União Soviética como uma verdadeira superpotência, mas foi na habitação que deixou o seu maior legado.
Esse legado materializou-se num programa de construção de habitações padronizadas, que deu origem aos famosos «Khrushchyovkas».
Eram edifícios de três ou cinco pisos, geralmente construídos com recurso a elementos pré-fabricados, que disponibilizavam apartamentos T1 e T2, com instalações sanitárias e cozinhas privadas, organizados em bairros e a preços acessíveis aos trabalhadores.
Fontes apontam para a construção de 50 a 60 milhões de apartamentos deste tipo, que terão alojado cerca de 100 milhões de pessoas. Foi um programa que permitiu a milhões de cidadãos terem, finalmente, uma casa condigna, num esforço que atravessou todo o imenso território soviético: dos bairros periféricos de Moscovo às profundezas do vasto território da União Soviética, da fronteira com a Polónia à fronteira com o Alasca, e da fronteira com a China à fronteira com o Afeganistão.
Tratou-se de um programa assente na industrialização da construção, com estruturas de betão pré-fabricadas, produzidas a um ritmo industrial e posteriormente montadas nos locais de destino. Este modelo permitiu aumentar a previsibilidade dos prazos de execução e dos custos, reforçar a capacidade técnica do setor da construção e simplificar os trabalhos de manutenção posteriores.
Passados mais de 60 anos, os «Khrushchyovkas» continuam a alojar milhões de pessoas. As estimativas mais conservadoras apontam para a existência de centenas de milhares de apartamentos deste tipo ainda em utilização em todo o espaço da antiga União Soviética.
Mas este legado não se limitou à habitação. Abrangeu também o urbanismo e a construção de comunidades organizadas em torno de necessidades de proximidade: os «mikrorayons», ou microdistritos.
Os «mikrorayons» eram bairros construídos de raiz, dotados de jardins de infância, escolas primárias e secundárias, centros de saúde e clínicas de primeiros socorros, mercados de produtos frescos, espaços verdes e campos desportivos. Eram, na sua maioria, servidos por transportes públicos, pelo menos através de ligações de autocarro, e concebidos para garantir ligações privilegiadas às zonas industriais.
Pequenas cidades de proximidade dentro das grandes cidades, onde as necessidades do quotidiano estavam acessíveis e podiam ser satisfeitas de forma mais simples, mesmo em metrópoles de enormes dimensões como Moscovo, Kiev, Tashkent, Riga ou Baku.
Não tenhamos dúvidas: os «Khrushchyovkas» e os «mikrorayons» representaram a base de um dos maiores saltos na qualidade de vida de milhões e milhões de pessoas, sendo ainda hoje apontados como uma das maiores transformações sociais e habitacionais da história destes países.
Fica, então, uma pergunta para reflexão de todos: se um líder que esteve à frente de alguns dos maiores avanços na exploração espacial e da consolidação de um dos sistemas de saúde mais abrangentes do mundo tinha como uma das suas principais preocupações garantir que as pessoas tinham uma casa condigna, como é que os nossos responsáveis políticos, que estão longe de ter alcançado transformações de dimensão semelhante, continuam a considerar que a habitação não é a prioridade absoluta e um dos problemas fundamentais que importa resolver?
Nikita Khrushchev, gostem ou não da sua ideologia, foi a prova que a habitação, a habitação digna e com qualidade, é a base para o real desenvolvimento de uma sociedade, de um projecto de desenvolvimento de sociedade, mais do que os feitos militares, mais do que os feitos económicos, mais do que os feitos científicos.










