A futura Ponte Calatrava está a transformar-se num dos temas políticos mais explosivos em Barcelos.
Depois da aprovação de um ajuste direto de cerca de 4 milhões de euros apenas para o projeto de execução da nova travessia sobre o Rio Cávado, os partidos da oposição multiplicam críticas ao executivo liderado por Mário Constantino, acusando a Câmara de apostar numa obra “de prestígio” sem responder às prioridades reais do concelho.
Apesar das diferenças ideológicas, há um ponto comum entre IL, LIVRE, CHEGA e Bloco de Esquerda: nenhum rejeita totalmente a necessidade de uma nova ponte. O problema, dizem, é a dimensão do investimento, a escolha de Santiago Calatrava e o receio de uma derrapagem financeira que poderá ultrapassar os 50 milhões de euros.
A Iniciativa Liberal Barcelos, pela voz de Magda Ferro, admite que a mobilidade no concelho exige uma nova solução, mas deixa um recado direto ao executivo: “Não precisamos de uma obra de arte para resolver um problema de mobilidade”.
Os liberais defendem antes uma ponte “simples, funcional, segura e financeiramente sustentável”, lembrando que o município já enfrenta elevados encargos financeiros relacionados com o acordo das Águas de Barcelos, empréstimos milionários, a nova ETAR e outros investimentos anunciados.
A IL vai mais longe e considera que Barcelos já tem o seu verdadeiro símbolo identitário: a Ponte Medieval. “A identidade de Barcelos não depende de uma assinatura internacional inspirada em Santiago Calatrava”, refere o partido.
Também o LIVRE Barcelos aponta baterias ao projeto, questionando se existem estudos atuais que provem que esta será realmente a melhor solução para a cidade. Jorge Araújo considera que o executivo parece “mais preocupado na autoria da ponte” do que na sua funcionalidade.
O partido fala mesmo numa possível “obra faraónica” e alerta que o investimento poderá comprometer futuras respostas em áreas críticas como habitação, saúde, rede viária, cultura ou desporto.
“O investimento público deve ser orientado por prioridades claras e por interesse coletivo”, refere o LIVRE, criticando ainda a ausência de “concurso público ou processo de seleção transparente”.
Já o CHEGA Barcelos utiliza um discurso particularmente duro. Paulo Ralha compara o conceito da Ponte Calatrava aos grandes projetos urbanísticos de Bilbau ou Valência, mas acusa Barcelos de querer começar “pela cereja no topo do bolo”.
“Temos falhas urbanísticas, rodoviárias e até ao nível básico do saneamento e depois queremos partir para uma obra destas para gastar 40 milhões de euros”, afirma.
O dirigente do CHEGA considera ainda que o valor final “não vai ser 40 milhões, vai ser muito mais”, acusando o projeto de estar “completamente descontextualizado” da realidade do concelho.
O Bloco de Esquerda Barcelos também não poupa críticas e fala mesmo numa “obscenidade política”.
Joana Neiva acusa o executivo de insistir numa lógica de “vaidade política” centrada no nome mediático do arquiteto espanhol. “Mais do que uma obra de vaidade política, Barcelos precisa de políticas públicas responsáveis, equilibradas e focadas nas pessoas”, defende.
O BE recorda ainda que o projeto nasceu há cerca de duas décadas, no tempo de Fernando Reis, acabando por ser abandonado devido aos custos elevados. Agora, dizem os bloquistas, “a mesma teimosia regressa”.
Enquanto a Câmara de Barcelos continua a apresentar a ponte como um investimento estratégico para o futuro da cidade, cresce a pressão política para que sejam apresentados estudos atualizados, alternativas comparativas e garantias financeiras claras antes do avanço definitivo da obra.
O E24 também abordou Carlos Brito, do PS, mas esteve não se prenunciou. No entanto, em pesquisa do E24, encontrou-se opiniões associadas aos socialistas após uma reunião de Câmara.
Estes recordam que o projeto da nova travessia sobre o Rio Cávado, entre Barcelinhos e Vila Frescaínha São Martinho, já tem mais de 25 anos. O estudo prévio, projeto-base e projeto de execução terão sido contratados em 1999 por cerca de 200 mil euros.
Apesar do PS não se opor diretamente à construção de uma nova ponte na zona urbana do concelho, os socialistas criticam o que classificam como um “gasto milionário” associado ao processo.
Na reunião do executivo municipal, os eleitos do PS votaram contra a proposta e questionaram o executivo PSD sobre “o benefício efetivo e qual o retorno que este projeto implicará para os barcelenses”.




