Há uma mentira instalada no debate público. Não é uma mentira consciente, talvez. Mas é perigosa na mesma: a ideia de que anunciar centenas de ambulâncias resolve o problema da emergência médica em Portugal. Não resolve. E fingir mata pessoas.
Quando se anuncia a compra de 275 ambulâncias, muita gente suspira de alívio. Finalmente, uma resposta. Finalmente, ação. Finalmente, alguém a fazer alguma coisa. O problema é que, na vida real, aquela que acontece fora dos comunicados de imprensa, as coisas não funcionam assim.
Uma ambulância não é um botão que se carrega e pronto. Não é uma app que se instala. Não é uma peça que se encaixa num sistema já a funcionar. Uma ambulância só salva vidas quando há gente preparada dentro dela. Quando há equipas suficientes para garantir turnos.
Quando há um sistema organizado que a faz chegar onde é precisa. E quando quem lá está não está tão esgotado que deixa de conseguir pensar direito. Tudo isso leva tempo. Muito tempo. O tipo de tempo que não cabe numa manchete.
Formar um profissional de emergência médica não demora semanas. Demora anos. Criar equipas estáveis não se faz com anúncios. Faz-se com condições de trabalho decentes, salários que permitam viver, horários que não destroem famílias. Reorganizar um sistema nacional não se faz em cima de uma crise. Faz-se com planeamento sério, demorado, sem atalhos.
Dizer ao país que “vamos ter mais ambulâncias” quando as que existem já estão paradas por falta de profissionais é como comprar mais autocarros quando não há motoristas. Parece ação. Mas é teatro. E em emergência médica, esse teatro mata.
O cidadão comum não quer saber de modelos de gestão. Não quer estudos. Não quer PowerPoints. Quer saber uma coisa só: quando ligar 112, alguém vem a tempo de salvar quem ama ou quem precisa de ajuda? E na última semana, o país viu isto: pessoas a morrer depois de horas à espera de socorro.
Ambulâncias paradas não por avaria, mas porque não há ninguém para as conduzir.
Profissionais no limite, não só físico, mas também psicológico, a tentar segurar um sistema que está a colapsar. E, no meio disto tudo, anúncios.
Para quem está do lado de cá, do lado de quem espera, isto soa a indiferença. Mesmo que não seja. Mesmo que haja gente bem-intencionada a trabalhar. A perceção também conta. E a perceção atual é de abandono.

Há algo que raramente se diz de forma clara, por isso vou dizê-lo: o sistema ainda funciona porque há pessoas a sacrificar-se. São os mesmos técnicos. Os mesmos enfermeiros. Os mesmos médicos. Os mesmos turnos de 12, 16, 24 horas. As mesmas escalas esticadas até ao limite do que o corpo aguenta.
Cada vez que se anuncia “reforço” sem resolver a base humana do sistema, está-se a pedir a essas pessoas que façam ainda mais. Que durmam menos. Que aguentem mais. Que sacrifiquem mais. Mas ninguém aguenta para sempre.
E aqui está a parte que os políticos precisam mesmo de ouvir: quando se empurra um sistema já exausto com mais exigência, não se resolve um problema. Criam-se dois. Primeiro: aumenta o risco de erro humano. Pessoas cansadas falham. Isso não é fraqueza, é biologia pura.
Segundo: perde-se quem ainda lá está. Quem sai não volta. E quem fica, fica a pensar em sair. E quando isso acontece, não há ambulância nova que compense a perda de experiência, de conhecimento, de vontade de ajudar.
O país ouviu, há pouco tempo, que o INEM ia mudar de modelo. Que deixaria de ter ambulâncias próprias. Que se ia focar na coordenação. Agora ouve que vai comprar centenas de viaturas. Para quem está fora dos gabinetes, isto não faz sentido. Para quem está dentro do sistema, isto gera incerteza. Para quem decide, devia gerar alarme.
Não se pode reformar um serviço essencial com mensagens contraditórias. A população precisa de perceber quem faz o quê. Quem responde quando há falhas. Quem está no terreno. Sem isso, perde-se confiança. Sem confiança, perde-se tempo. Sem tempo, perde-se vidas.
A verdade é simples. Brutal, mas simples: Portugal não precisa apenas de mais ambulâncias. Precisa de mais pessoas. Precisa de melhor organização. Precisa de menos improviso. Precisa de mais honestidade. Precisa de admitir que formar profissionais demora anos. Precisa de aceitar que reformas sérias não se fazem em três meses.
Precisa de proteger quem ainda está a segurar o sistema de pé. Precisa de parar de fingir que tudo se resolve com um anúncio e uma conferência de imprensa.
Porque a emergência médica não vive de números em slides. Vive de gente. De gente preparada, descansada, motivada.
Este texto não é contra o INEM. Não é contra profissionais de saúde. Não é contra este ou aquele governo. É contra a normalização do falhanço. É contra a ideia de que se pode comunicar uma solução sem a construir. É contra a lógica de sacrificar hoje para empurrar o problema para amanhã.
A pergunta que fica não é ideológica. Não é partidária. É humana: quando alguém liga 112, quem garante que alguém chega a tempo? E quem garante que quem chega ainda tem forças para continuar amanhã?
Enquanto esta resposta não for clara, assumida e verdadeira, o problema não será resolvido. Porque, no fim, não é uma questão de ambulâncias. É uma questão de tempo, pessoas e verdade.
E mentiras, por mais bem-intencionadas que sejam, não salvam vidas.



