Jacintos aquáticos – ou de água – é uma das piores espécies aquáticas invasoras.
O E24 analisou o fenómeno sem romantismo: o jacinto-aquático é bonito, mas é um problema real no Norte e até no resto do país.
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Que espécie é esta?
O jacinto-aquático (Eichhornia crassipes) é uma planta flutuante originária da Amazónia. Pertence a uma família ausente da flora nativa (Pontederiaceae). As flores violáceas, com uma mancha amarela no interior, erguem-se em espigas rodeadas por 8 a 15 folhas. Conquistou viveiros e jardins como ornamental.
Plástica e oportunista, adapta-se ao meio. Em colónias densas alonga os pecíolos e pode chegar a um metro. Em áreas ralas tem pecíolos bolbosos, até 30 centímetros, que flutuam, com folhas em forma de rim.
Porque “praga verde”?
Reproduz-se por via sexuada e vegetativa. Em Portugal domina a via vegetativa: de gemas axilares em estolhos nascem “filhos” que se soltam ao criar raízes. Em quatro semanas uma planta pode gerar 100 novos indivíduos e multiplicar por 20 a área inicial. Na Amazónia domina a via sexuada: uma inflorescência produz 3.000 sementes viáveis até 20 anos.
Como chegou e quem travou?
Portugal foi o primeiro país europeu a reportar a espécie. O primeiro registo data de 1939, na Herdade do Rio Frio e em charcos de Fernão Ferro, bacia do Sado. A expansão ganhou impulso na Feira Mundial de Nova Orleães, 1884, onde foi exibida como ornamental. Nos anos 70, o Ribatejo sofreu uma invasão séria. Daí nasceu o Decreto-Lei n.º 165/74, de 22 de abril, que proibiu importação, cultura, venda, transporte, detenção e propagação.
Onde está hoje?
Em Portugal continental ocupa Minho, Douro Litoral, Beira Litoral, Estremadura, Ribatejo, Alto Alentejo e Algarve. Nos Açores está na Terceira.
Há focos em zonas agrícolas, como a Lezíria Grande de Vila Franca de Xira, e em cursos de água de várias bacias: Guadiana, Tejo, Mondego, Sado.
Também chegou a pauis, lagoas e áreas protegidas, incluindo a Pateira de Fermentelos e o Paúl do Boquilobo.
Qual é o dano?
Não é um problema…são muitos. Diminui a biodiversidade da flora e da fauna, destrói habitat e pode ser letal para peixes e invertebrados. Interfere na navegação e nas atividades de recreio.
Baixa oxigénio, altera temperatura, pH e nutrientes da água. Aumenta a evapotranspiração e reduz disponibilidade de água. Entope pontes, canais e centrais hidroelétricas.
Favorece microrganismos e insetos vetores de doenças humanas como malária, encefalite e cólera.
Como controlar?
Erradicar é difícil. A gestão exige continuidade e mistura de métodos. Prevenir é chave: cortar a carga de nutrientes, sobretudo azoto e fósforo, aplicando a lei dos nitratos e boas práticas agrícolas.
O controlo químico existe, mas muitos países europeus restringem herbicidas em meio aquático.
Físico é o mais usado: remoção manual, maquinaria e ceifeiras‑aquáticas. Barreiras e redes travam a deriva em rios. Alterações de nível de água ajudam quando possível.
No biológico usam-se inimigos naturais da origem, sobretudo artrópodes e fungos, e até peixes herbívoros.
E no mundo?
A distribuição vai de 40º N (Portugal) a 40º S (Nova Zelândia). Está em todos os continentes, exceto a Antártida, e em mais de 70 países.
Provoca prejuízos económicos, ecológicos e sociais.
Integra a lista das 100 piores invasoras da IUCN. Na União Europeia está na “Lista da União”, com regras de contenção. Há legislação com coimas em vários países, incluindo Angola, Estados Unidos, Portugal e Espanha.
Três factos úteis
As raízes longas e ramificadas parecem uma cabeleira desgrenhada, daí o nome vernáculo “desmazelos”.
Na Amazónia, o aguapé dá “sal‑de‑índio”, rico em potássio e pobre em cloreto de sódio.
E, apesar do estatuto de invasora, tem usos: depura metais pesados e efluentes; fornece fibras para papel, tecidos e cordas; entra em cosméticos e produtos medicinais; serve de ração, alimento e adubo orgânico.
No Norte, a regra é simples: não plantar, não transportar, reportar.
Menos nutrientes, menos jacintos. Recurso na Amazónia. Praga nas nossas águas.



