Passei quatro dias extraordinários na aldeia de Forniçô, no concelho de Sátão. Mergulhei na história de um grupo de pessoas excecionais que se juntou para fundar a cooperativa integral ‘Farol do Colibri’ e trazer de novo a vida a uma aldeia praticamente abandonada.
Para eles, o ‘apagão’ não trouxe nada de novo, a não ser a certeza de que estão no caminho certo. Afinal, não são dependentes de redes elétricas nacionais ou mercados globais de abastecimento. Vivem do sol, da terra e da vida em comunidade, cruzando tecnologia e saberes ancestrais. São um exemplo brilhante do mundo que queremos e de como a economia pode estar ao serviço da regeneração.

Temos de ‘desligar a máquina’ deste sistema opressor que está a condenar pessoas e o planeta; temos de promover a transição; e temos de nos dedicar a experimentar e construir um mundo novo, com uma economia focada na Vida. Economia e Ecologia são justamente palavras que têm a mesma origem, do grego oikos (que significa casa). Trata-se de conhecer a nossa ‘casa comum’ (ecologia), para melhor a gerir (economia).
Elinor Ostrom foi a primeira mulher a ganhar o prémio Nobel da Economia, graças ao seu trabalho, ‘no terreno’, na identificação das qualidades exigidas a um sistema de governança que resolva a ‘tragédia dos comuns’. Tragédia que revela o rosto mais pérfido do atual sistema económico: indivíduos, agindo em interesse próprio, esgotam um recurso partilhado (o ‘comum’), prejudicando o coletivo a longo prazo. Elinor demonstrou que as comunidades locais podem gerir os recursos de forma sustentável através da auto-organização e da ação coletiva.
As cooperativas integrais são uma das ferramentas possíveis para implementar na prática estes sistemas de autogestão dos comuns a partir das comunidades. Representam espaços onde os indivíduos podem apoiar-se mutuamente no desenvolvimento das suas atividades regenerativas e, simultaneamente, fortalecer iniciativas coletivas que expandem o potencial do território. Estas cooperativas designam-se de ‘integrais’ porque procuram cobrir todas as áreas necessárias ao viver, da educação à habitação, passando pela alimentação. Segundo Jorge Gonçalves, doutorado em Economia e um dos grandes dinamizadores desta forma de organização económica, na realidade “as cooperativas integrais aparecem para responder a um sistema legal e fiscal que torna cada vez mais burocrático, complexo e caro, para uma pessoa ou grupo poder fazer qualquer tipo de atividade” (artigo aqui).
As cooperativas integrais estão em franca expansão em Portugal e, para quem se possa interessar pelo assunto, sugiro uma visita à página da Rede de Cooperativas Integrais (https://redecoopintegral.org). Lá podemos encontrar iniciativas de Norte a Sul do País. Como a da ‘Regenerativa’, cooperativa sediada em São Luís, uma verdadeira teia de empreendedorismo regenerativo, com projetos transversais como o SAL – Sistema Alimentar Local de Odemira. O SAL é um projeto comunitário que liga quem produz a quem consome, fortalecendo a economia local e promovendo práticas agrícolas regenerativas, justas e sustentáveis. No coração desta iniciativa fica o Espaço Nativa, sede da Regenerativa e um projeto vivo ao serviço do território. Integra uma mercearia a granel e uma cozinha em relação direta com os produtores locais.

Estive em Forniçô justamente para participar no 1.º Festival do Cooperativismo Integral, que teve lugar neste espaço de 13 hectares geridos pela Farol do Colibri (https://www.escolaregenerativa.pt). No festival tive o orgulho de representar a Raiz Comum (https://raizcomum.pt), cooperativa integral sedeada na Póvoa de Varzim e da qual sou cofundador. A Raiz Comum foi porventura o ‘efeito secundário’ mais positivo surgido do Centro do Clima e alberga os esforços individuais e coletivos de grande parte dos membros mais ativos do que foi o movimento ‘Póvoa em Transição’. Foi fundada em 2025, Ano Internacional das Cooperativas, decretado pelas Nações Unidas com o lema “As cooperativas constroem um mundo melhor“. O próximo Festival do Cooperativismo Integral será no primeiro fim-de-semana de outubro deste ano, em Fafe, e recomendo vivamente que vão lá espreitar. Surge por impulso da cooperativa integral Raiz Minhota.
As cooperativas integrais são assim o reflexo deste desejo de cooperar para mudar o Mundo. Mas também têm limitações, já que refletem inevitavelmente a face mais negra de um sistema baseado em competição, individualismo e busca do lucro a todo o custo. Por exemplo, quando não estão instalados sistemas internos de governança sociocrática, os esforços podem acabar por resultar em conflitos, inação e mais frustração acumulada. Por outro lado, estas organizações prefigurativas são frágeis perante fenómenos exógenos como o recente abandono da CASES pelo Estado.
Resumindo, e para responder à questão do título desta crónica, precisamos de cooperar para mudar, mas também de mudar (em particular os sistemas de decisão) para poder cooperar efetivamente.



