A poucos dias da meia-noite mais simbólica do ano, há um ritual que resiste ao tempo e às tendências: escolher a lingerie certa para entrar em 2026.
Em Portugal, como em muitos países, a roupa interior na passagem de ano é mais do que um detalhe — é superstição, é promessa e, para alguns, quase um contrato informal com a sorte.
O costume está longe de ser novo, mas mudou de forma. Hoje, a lingerie de Ano Novo não vive apenas do simbolismo das cores: há uma procura crescente por modelos confortáveis, tecidos respiráveis, cortes que favorecem diferentes corpos e uma exigência clara: que seja bonita sem ser incómoda. A superstição continua, mas a lógica do mercado impõe-se — e as marcas perceberam que a passagem de ano é uma montra.
Azul-bebé, vermelho e dourado: a paleta de “pedidos” para o novo ano
A cueca azul-bebé mantém-se como uma das escolhas mais populares. É a cor associada à serenidade, equilíbrio emocional e proteção. É o clássico discreto: não promete amores impossíveis nem fortuna imediata, mas dá a sensação de entrar no ano com o “corpo alinhado” e a cabeça mais tranquila.
Já o vermelho continua a ser o rei das superstições. Simboliza paixão, energia e intensidade — e chega atualizado em rendas geométricas, cortes minimalistas e transparências controladas. O objetivo é simples: parecer sensual sem parecer desconfortável, mesmo depois de horas de jantar, brindes e dança.
O branco, por outro lado, é a escolha de quem quer recomeçar. Paz, limpeza, renovação. É o tom para quem entra no ano sem barulho e sem excessos — mas com intenção.
E o dourado ganhou estatuto de uniforme de festa: prosperidade, luxo, dinheiro a caminho. É também a cor mais “instagramável” e a que se encaixa melhor na estética de Ano Novo. Não é coincidência: o dourado vende.

Do athleisure ao boudoir: a lingerie deixou de ser “só cueca e soutien”
Há uma tendência clara para modelos híbridos. Bralettes com suporte médio, tecidos técnicos, peças sem costuras rígidas e propostas inspiradas no athleisure entram com força para quem quer conforto. A ideia é direta: celebrar sem sofrimento. E isto aplica-se, sobretudo, à noite em que muita gente passa horas com a mesma roupa.
Ao mesmo tempo, existe uma fatia do mercado que quer o oposto: marcar território. A lingerie boudoir aparece com cintas-ligas, recortes estratégicos, transparências mais intensas e aplicações metálicas. Aqui, a superstição dá lugar à performance: a lingerie como peça central do look — ou como segredo de noite longa.

E no resto do mundo? Há tradições ainda mais estranhas do que escolher cuecas
A roupa interior colorida pode parecer excêntrica, mas há quem leve a passagem de ano para outro nível.
Em Espanha, o ritual é conhecido: comer 12 uvas ao ritmo das badaladas para garantir sorte nos 12 meses seguintes. Quem falha, diz a crença, entra no ano com azar já marcado na agenda.
Na Dinamarca, existe uma tradição barulhenta: partir pratos e chávenas contra a porta de amigos e familiares. Quanto maior a pilha de cacos à entrada, mais amizades e mais sorte — uma espécie de ranking social em cerâmica destruída.
Nas Filipinas, as formas redondas são obsessão na noite de Ano Novo: roupa com bolas, moedas nos bolsos e mesas cheias de frutas redondas. O motivo é simples: redondo lembra moeda, e moeda lembra dinheiro.
No Japão, os templos tocam sinos 108 vezes para “limpar” os desejos e falhas humanas do ano que termina. É um ritual espiritual e silencioso — o oposto do que se faz nas ruas em grande parte da Europa.
Na Rússia, há quem escreva um desejo num papel, o queime, deite as cinzas no champanhe e beba antes da meia-noite. É literalmente engolir o objetivo do ano novo. Não há simbolismo mais direto.
E em partes da América Latina, como Colômbia, há quem corra com uma mala vazia à volta do quarteirão para atrair viagens no ano seguinte. Se funciona? Não se sabe. Mas dá para perceber quem está desesperado por férias.
A superstição não acaba — só muda de forma
Entre cuecas azuis e uvas apressadas, a passagem de ano continua a ser um terreno fértil para crenças populares. A diferença é que, hoje, essas crenças são também produto: vendem-se em renda, microfibra, acetinado e campanhas publicitárias em tom de ritual.
No fim, o que se veste nas 12 badaladas pode não mudar o destino. Mas muda a confiança — e, para muita gente, isso já é meio caminho para entrar no ano com a sensação de controlo. E na última noite do ano, é isso que a superstição promete: a ilusão confortável de que estamos a fazer alguma coisa para que 2026 corra melhor.




