Quando estudamos ciência política e relações internacionais, aprendemos rapidamente que avaliar um líder exige contextualização histórica.
Não basta olhar para o que foi feito; é essencial compreender o que existia antes, quais eram os constrangimentos estruturais e qual o verdadeiro ponto de partida. É com esse enquadramento que se deve analisar o mandato do Presidente João Lourenço, sob pena de uma leitura superficial não fazer justiça à dimensão do que foi alcançado.
Angola chegou à independência, em 1975, em guerra — e assim permaneceu durante quase três décadas. Quando o conflito terminou, em 2002, o Estado angolano era, em termos técnicos, um Estado frágil: infraestruturas destruídas, instituições marcadas por lógicas de sobrevivência política e uma economia excessivamente dependente de uma única commodity. Os presidentes que antecederam João Lourenço, Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos, governaram em contextos profundamente adversos e distintos, o que torna comparações directas metodologicamente limitadas. Ainda assim, é precisamente nesse contexto que o mandato de João Lourenço se destaca: recebeu um Estado que tinha sobrevivido, mas que nunca se tinha verdadeiramente reformado — e optou por reformá-lo.
Na área da energia, os avanços são claros, mensuráveis e verificáveis — critérios essenciais para qualquer análise rigorosa. A taxa de electrificação nacional aumentou de 33% em 2017 para 43% em 2021, com a ambição declarada de atingir 60% até 2025. Paralelamente, as energias renováveis reforçaram o seu peso no mix energético, passando de 59% para 64% no mesmo período. Ao contrário de períodos anteriores, em que o petróleo funcionava como resposta quase universal às necessidades do país, assistimos agora a uma abordagem mais estruturada e orientada para a sustentabilidade. Essa mudança de paradigma rompe com décadas de dependência e introduz uma lógica de planeamento estratégico no sector energético.
O reconhecimento internacional surgiu de forma relativamente célere. Em 2025, a African Energy Chamber distinguiu João Lourenço como “Personalidade Energética do Ano”, sublinhando o seu papel na transformação do sector e na atracção de investimento externo. Este tipo de distinção tem um peso que ultrapassa o simbólico: representa a validação externa de uma trajectória de reformas que, internamente, nem sempre foi simples de sustentar.
No domínio da segurança e da política externa, Angola assumiu um papel que marca uma inflexão clara na sua posição no sistema internacional
A União Africana designou formalmente o Presidente João Lourenço como “Campeão” para a paz e reconciliação em África, conferindo-lhe um mandato activo na facilitação do diálogo entre a República Democrática do Congo e o Ruanda, no âmbito do Processo de Luanda. Esta designação traduz responsabilidades diplomáticas e jurídicas concretas, e reflecte um nível de confiança institucional inédito. Angola deixou de ser apenas um Estado beneficiário de processos de paz para se afirmar como um dos seus arquitectos, sinalizando uma mudança qualitativa na sua projecção externa.
Esta nova postura tem também implicações directas para Portugal. João Lourenço investiu de forma consistente na normalização e no aprofundamento das relações bilaterais, promovendo uma parceria baseada no respeito mútuo e na cooperação institucional. Num contraste evidente com períodos anteriores marcados por alguma desconfiança, a relação tem vindo a traduzir-se em acordos concretos, visitas de Estado e uma crescente convergência de interesses. A língua comum, a história partilhada e os laços humanos deixam de ser apenas referências diplomáticas para ganharem expressão prática.
O corredor do Lobito ilustra bem esta nova realidade
Trata-se de um projecto estratégico que conseguiu atrair um compromisso significativo dos Estados Unidos, evidenciando a capacidade de Angola se posicionar como parceiro credível num contexto de competição geopolítica global.
Naturalmente, uma análise séria exige também o reconhecimento de limitações. Há áreas onde persistem desafios e onde os progressos são ainda insuficientes. Ignorá-los seria intelectualmente desonesto.
Ainda assim, o que distingue João Lourenço dos seus antecessores é a combinação de três dimensões raramente reunidas: uma reforma efectiva do sector energético, uma política externa assente na mediação e no multilateralismo, e o início de uma diversificação económica com resultados concretos. Nenhum presidente angolano anterior conseguiu articular estes três eixos em simultâneo.
Para Portugal, esta trajectória abre oportunidades claras. Angola dispõe de reservas significativas de minerais críticos, cujo acesso seguro é hoje uma prioridade estratégica para a União Europeia. Neste contexto, Portugal, pela sua relação privilegiada com Luanda, encontra-se numa posição particularmente favorável para desempenhar um papel relevante na articulação desta agenda, caso exista visão estratégica para o fazer.
Na teoria das relações internacionais, este tipo de trajectória corresponde à consolidação de poder inteligente: a combinação entre capacidade interna reformada e projecção externa credível. É precisamente esse processo que Angola está a atravessar. E é nesse quadro que o mandato de João Lourenço deverá ser avaliado quando, com o distanciamento necessário, a história vier a ser escrita.



