Associação de Vecinos de As Conchas alerta para riscos graves de saúde pública nas águas da fronteira luso-galaica; “macroquintas” de pecuária industrial na província de Ourense estão na origem do desastre ecológico
O desastre ambiental provocado pela proliferação descontrolada de cianobactérias (bloom) na bacia do rio Lima alastrou oficialmente ao território fronteiriço. A Associação de Vecinos de As Conchasemitiu um comunicado científico urgente alertando que a albufeira de Lindoso — que une a Galiza a Portugal — se tornou a “nova vítima” da poluição gerada pela atividade agropecuária intensiva da comarca galega da A Limia.
De acordo com as análises laboratoriais efetuadas pela equipa científica da associação, a contaminação em Lindoso já atinge níveis iguais ou superiores aos registados na vizinha albufeira de As Conchas. A inação continuada das autoridades espanholas ao longo de 15 anos permitiu que a carga de poluição biológica escorresse rio abaixo, ameaçando agora diretamente a saúde de banhistas, desportistas e ecossistemas em ambos os lados da fronteira, com impacto imediato nas populações galegas de Lobios e Entrimo, e na região do Alto Minho, em Portugal.
Géneros detetados e os riscos para a saúde humana
As amostras recolhidas na água revelaram a presença concentrada de microrganismos altamente perigosos e incompatíveis com a segurança pública. O relatório detalha o perfil clínico e biológico das duas ameaças identificadas:
1. Género Microcystis
É uma das cianobactérias de água doce mais estudadas devido à sua elevada toxicidade. Este organismo liberta microcistinas, um grupo de potentes hepatotoxinas com capacidade destrutiva que atacam diretamente as funções do fígado.
2. Género Aphanizomenon
Capaz de produzir duas toxinas graves:
- Saxitoxinas: Neurotoxinas de agressividade extrema no organismo, associadas à Intoxicação Paralítica por Mariscos;
- Cilindrospermopsina: Uma citotoxina agressiva que inibe a síntese de proteínas e destrói o material genético. Ataca simultaneamente o fígado e os rins (ação hepatotóxica e nefrotóxica).
- Sintomas de Exposição: A ingestão, contacto ou inalação acidental destas águas contaminadas pode desencadear febres altas, dores de cabeça intensas, vómitos, diarreias hemorrágicas e quadros graves de mal-estar geral.

A origem: O impacto das ‘macroquintas’ de suínos e aves
A associação sublinha que este fenómeno ambiental não é um evento casual nem está dependente apenas de fatores meteorológicos. Trata-se da consequência direta do excesso de nutrientes despejados nas linhas de água, com destaque para o azoto e o fósforo.
Estes componentes químicos derivam do escoamento e da falha de reciclagem de toneladas de purinas, nitratos e estrume de galinha (gallinaza) produzidos de forma massiva pelas grandes explorações pecuárias industriais e pelas denominadas macroquintas de porcos da bacia do Lima.
Sentença judicial condena inação da Xunta e da Confederação Hidrográfica
A persistência deste crime ambiental levou a associação de moradores a mover uma ação judicial em Espanha. O tribunal emitiu uma sentença condenatória firme contra a Xunta de Galicia (pelas falhas na fiscalização dos resíduos agrários e proteção ambiental) e contra a Confederação Hidrográfica do Miño-Sil (pela negligência na salvaguarda da qualidade da água).
Apesar de a condenação judicial ter transitado em julgado, a associação lamenta que nenhuma medida estrutural tenha sido aplicada até ao momento pelos organismos públicos de Ourense.
Falta de sinalização coloca turistas e desportistas em risco
A maior preocupação foca-se na falta de transparência das autarquias galegas da bacia. Enquanto As Conchas se encontra em Alerta de Nível 2, municípios como Lobeira e Muíños são acusados de esconder o problema, omitindo avisos aos banhistas. O município de Bande mantém cartéis contraditórios que indicam, em simultâneo, “água excelente” e “proibido banhar-se”, confundindo os veraneantes.
A associação recorda que o Programa de Vigilância Sanitária das Zonas de Banho de Galicia 2026-2030 obriga legalmente todas as autoridades locais a sinalizar e proibir o acesso a qualquer espelho de água afetado por cianobactérias, quer sejam praias fluviais oficiais ou zonas de lazer informais.
A direção da Associação de Vizinhos de As Conchas apela agora publicamente para que os municípios limítrofes de Lobios e Entrimo que confinam com a albufeira partilhada de Lindoso “atuem com responsabilidade” e avancem com a colocação urgente de sinalética clara nas margens, evitando uma exposição desnecessária da população e de animais a uma ameaça real de saúde pública.
Os cidadãos, pescadores, praticantes de desportos náuticos e turistas do Gerês e Alto Minho que pretendam acompanhar as atualizações epidemiológicas ou consultar os relatórios semanais de balneabilidade das águas transfronteiriças do rio Lima podem aceder aos dados públicos da Confederação Hidrográfica do Miño-Sil.




