Todos os dias ouvimos falar dos milhões do PRR.
Milhões para escolas.
Milhões para hospitais.
Milhões para habitação.
Milhões para estradas.
Milhões para empresas.
Parece que o dinheiro aparece por magia.
Mas, como diz o povo, não há almoços grátis.
O PRR é um programa financiado pela União Europeia para apoiar investimentos considerados essenciais para o futuro do país.
Mas importa não esquecer uma coisa: esse dinheiro não é gratuito. Assenta na riqueza criada pelos cidadãos e pelas empresas, nas contribuições dos Estados e em financiamento que, mais cedo ou mais tarde, também terá de ser suportado.
Em suma, ninguém dá nada a ninguém.
Primeiro cria-se riqueza.
Depois arrecadam-se recursos.
Só depois esse dinheiro regressa à economia através de programas como o PRR.
E há uma ironia que quase ninguém conhece.
Nas próprias obras que alegadamente são financiadas pelo PRR, muitas vezes o dinheiro chega muito depois de a riqueza já ter sido criada.
Antes de existir qualquer reembolso, já houve trabalhadores a trabalhar, empresas a investir, fornecedores a entregar materiais, salários a serem pagos e riscos a serem assumidos.
Ou seja, quem primeiro financia uma grande parte da execução das obras são precisamente aqueles que todos os dias criam riqueza e mantêm a economia a funcionar.
A maioria das pessoas ouve falar do PRR na televisão. Vê ministros a inaugurar obras, presidentes de câmara a cortar fitas e políticos a anunciar milhões e inaugurações.
Mas ninguém vos conta o que acontece quando as câmaras se desligam.
E acreditem…
É aí que começa a verdadeira tourada.
O PRR tem prazos. Se as obras não estiverem feitas a tempo, o dinheiro pode perder-se. E, quando os prazos começam a apertar, instala-se o pânico.
De repente, telefones a tocar sem parar.
Reuniões atrás de reuniões.
Ordens contraditórias.
Papéis urgentes.
Pressões para acelerar tudo aquilo que, durante meses ou anos, andou parado.
Menos os pagamentos.
Porque, antes de chegar o dinheiro público, são as empresas e os portugueses que investem, assumem o risco e suportam esse esforço.
Aquilo que podia ter sido resolvido com calma, querem resolvê-lo em semanas.
E há outra coisa que quase ninguém sabe.
As pessoas olham para uma obra e pensam que, se há milhões anunciados, esse dinheiro já lá está.
Não está.
Nas empreitadas, é o empreiteiro que avança primeiro. É ele que paga salários, fornecedores, materiais, máquinas, combustível, seguros e mantém a obra a funcionar.
E, muitas vezes, só recebe muito mais tarde, depois de executar os trabalhos, das medições, das aprovações e de toda a burocracia. E, por vezes, já fora de prazo, tarde e a más horas.
Ou seja, durante muito tempo, é o empreiteiro que financia a obra.
Mas isso ninguém vê.
Tal como também ninguém vê o que acontece antes de uma obra arrancar.
Projetos incompletos.
Alterações sucessivas.
Pareceres.
Licenças.
Decisões que ficam meses numa gaveta.
Reuniões.
Ofícios.
Burocracia.
E, muitas vezes, também ninguém vê o que acontece durante a própria obra.
Alterações ao projeto.
Novas exigências.
Trabalhos complementares.
Decisões que tardam.
Problemas que surgem e que têm de ser resolvidos para que a obra continue.
Quando, finalmente, a primeira máquina entra em obra, muitas vezes já traz problemas que nasceram muito antes.
E depois acontece a parte mais portuguesa da história.
Ninguém quer assumir que falhou.
Ninguém quer dizer que um projeto chegou incompleto.
Ninguém quer admitir que uma decisão ficou meses numa gaveta.
Ninguém quer reconhecer que houve erros de planeamento.
Porque, se alguém assumir isso, fica ligado ao problema.
Então começa o jogo de empurrar responsabilidades.
Quem está no terreno, quem dá a cara, quem tem homens, máquinas, fornecedores e investe o seu próprio dinheiro passa, muitas vezes, a ser o elo mais fraco da corrente. Não porque seja sempre o responsável, mas porque é quem aparece no fim da fotografia.
E as pessoas lá em casa olham para uma obra atrasada e pensam:
“A culpa é do empreiteiro.”
Se soubessem metade do que acontece antes de uma obra arrancar… e metade do que acontece durante a sua execução… talvez percebessem que a realidade é muito mais complexa.
O problema não é apenas dinheiro.
Nunca foi.
O problema é que, quando os prazos apertam, parece que deixamos de olhar para aquilo que realmente interessa.
O interesse público.
As pessoas.
As escolas.
Os hospitais.
As estradas.
Os equipamentos que estas obras devem servir.
De repente, a prioridade deixa de ser construir bem.
Passa a ser cumprir calendários.
Justificar atrasos.
Encontrar culpados.
Proteger posições.
E a verdadeira tourada deixa de ser a obra.
Passa a ser a gestão das responsabilidades.
Mas também há uma coisa muito portuguesa.
No fim, quase tudo acaba por se resolver.
Com mais tempo.
Com mais esforço.
Com mais dinheiro.
Mas resolve-se.
O que faz falta é coragem.
Coragem para decidir.
Coragem para assumir erros, porque quem decide e quem executa também erra quando está a tentar resolver problemas e servir as pessoas.
E coragem para assumir responsabilidades, no setor público e no setor privado, sem transformar automaticamente o empreiteiro no culpado de tudo o que corre mal.
Porque uma obra pública não pertence ao Estado.
Nem ao empreiteiro.
Pertence aos cidadãos.
E, quando todos perdermos menos tempo a proteger posições e a procurar culpados, e mais tempo a resolver problemas, o verdadeiro interesse público voltará a estar no centro das decisões.
Talvez o PRR não esteja apenas a revelar o estado das obras.
Talvez esteja a revelar o estado do próprio Estado.
E essa é uma conversa que poucos querem ter.
Mas acredito que ainda existe muita gente competente, séria e corajosa nas nossas instituições.
Pessoas que todos os dias fazem o melhor que podem, muitas vezes com poucos meios e sob enorme pressão.
Porque o problema nunca são todos.
O problema é quando o sistema deixa de premiar quem decide, quem assume responsabilidades e quem resolve problemas.
Quando se torna mais importante proteger posições do que defender o interesse público.
É por isso que continuo a acreditar que vale a pena falar sobre estas questões.
Não para apontar o dedo a ninguém.
Mas para que possamos fazer melhor.
Porque, no fim, uma obra pública não é do Governo.
Não é da Câmara.
Não é do empreiteiro.
É dos cidadãos.
E talvez esteja na altura de recuperarmos uma palavra que parece cada vez mais rara:
Coragem.
Coragem para decidir.
Coragem para assumir erros.
Coragem para dizer a verdade, mesmo quando custa.
Coragem para repartir responsabilidades, em vez de procurar culpados.
Porque só com coragem se constroem boas obras.
Mas, acima de tudo, só com coragem se constrói um Estado melhor.
E, no fim, o que está verdadeiramente em causa não são os empreiteiros, os políticos ou os serviços públicos.










