Chamam-lhe imprensa livre… mas talvez demasiados jornalistas estejam apenas a sobreviver dentro de uma prostituição forçada da consciência e da própria imprensa.
Talvez isso diga mais sobre o verdadeiro estado da liberdade de imprensa em Portugal do que muitos discursos políticos.
Muitos jornalistas em Portugal vivem presos entre salários miseráveis, favores políticos, publicidade institucional, subsídios públicos, empresários, interesses, telefonemas discretos e o medo de perder a própria sobrevivência.
A censura moderna já não entra nas redações com pistolas.
Entra através da renda da casa.
Dos filhos.
Das contas por pagar.
Do contrato precário.
Do medo de ficar sem trabalho.
Do medo de enfrentar quem manda.
E depois nasce a pior prisão de todas:
A prisão da consciência.
Quando o jornalista começa a matar notícias dentro da própria cabeça antes de alguém lhe mandar calar.
Há verdades em Portugal que não morrem por serem mentira.
Morrem porque são perigosas para quem as escreve.
E talvez as pessoas também tenham de começar a perceber outra coisa:
Nem todos os silêncios nascem da falta de caráter.
Nem todas as consciências condicionadas nasceram da ganância.
Muitas começaram apenas com medo.
Medo de perder trabalho.
Medo de deixar faltar comida em casa.
Medo de não conseguir sustentar filhos e família.
Medo de enfrentar sozinho estruturas maiores do que eles próprios.
Porque é fácil pedir coragem absoluta a um jornalista quando não somos nós a arriscar a vida dele, o salário dele ou o futuro da família dele.
E talvez seja precisamente aí que muitos falham ao julgar os jornalistas.
Esquecem-se que por trás da profissão existe um ser humano.
Um pai.
Uma mãe.
Um homem.
Uma mulher.
Pessoas que muitas vezes carregam a consciência ferida entre aquilo que sabem… e aquilo que sentem que conseguem suportar sem destruir a própria vida.
Porque muitos jornalistas também são vítimas de um país pequeno, fechado e viciado em dependências entre política, negócios, poder e comunicação social.
Mas também existe responsabilidade do próprio povo.
O mesmo povo que exige jornalistas livres… mas não compra jornais.
Não apoia jornalismo independente.
Não protege quem denuncia.
Não ajuda quem perde tudo por dizer a verdade.
Não cria alternativa ao sistema que depois critica.
Querem jornalistas livres com barriga vazia.
Querem coragem sem proteção.
Querem verdade… mas deixam quem a escreve sozinho.
E enquanto o povo não perceber que uma imprensa verdadeiramente livre custa dinheiro, apoio, coragem coletiva e proteção social, os jornalistas continuarão dependentes exatamente dos poderes que deveriam vigiar.
Um jornalista não nasceu para servir o sistema.
Nasceu para incomodar o sistema.
E talvez a verdadeira liberdade de imprensa só comece no dia em que o próprio povo decidir libertar os jornalistas do medo.
Porque a maior tragédia de um povo não é apenas ter jornalistas condicionados.
É obrigar consciências a escolher entre a verdade… e sobreviver.
E talvez esteja na altura de o próprio povo fazer também uma pergunta a si mesmo:
Que apoio real dá aos jornalistas que ainda arriscam tudo para dizer a verdade?
Porque é fácil exigir coragem aos outros quando não somos nós a pagar o preço.
E talvez muitos jornalistas não precisem apenas de críticas.
Talvez precisem também de respeito, proteção, apoio e da sensação de que ainda vale a pena continuar a lutar pela verdade.
Eu ainda acredito no homem e na mulher jornalista.




