Depois de mais de duas décadas de avanços e recuos, o Acordo Mercosul–União Europeia voltou ao centro do debate internacional.
O tratado, iniciado no fim dos anos 1990 e marcado por longas pausas, regressa à mesa rodeado de dúvidas, pressões políticas e disputas económicas de ambos os lados. No papel, criaria uma das maiores zonas de comércio livre do mundo.
Na prática, tornou-se um campo de batalha entre sectores produtivos, governos e agendas ambientais.
As negociações começaram oficialmente em 1999, assentes em três pilares: comércio, cooperação e diálogo político. Mas desde logo surgiu o choque principal. A União Europeia queria maior abertura da indústria do Mercosul; o Mercosul queria entrar no mercado agrícola europeu, protegido pela PAC — a Política Agrícola Comum. O resultado foi um processo que avançava pouco, recuava muito e, por vezes, congelava durante anos.
Nos anos 2000, o contexto internacional também atrapalhou.
A UE concentrava-se na expansão para o Leste Europeu, enquanto o Mercosul se aproximava da China e aprofundava relações sul-sul. Só em 2010 as conversas retomaram força, mas continuaram presas ao mesmo impasse: agricultura de um lado, indústria do outro. A França foi, desde sempre, o maior obstáculo, defendendo o seu sector agrícola com firmeza.
O ritmo mudou em 2016, quando governos mais liberais no Brasil e na Argentina mostraram abertura para avançar. Em 2019, surgiu o anúncio político: o texto do acordo estava concluído. Faltava o passo mais difícil — aprovação parlamentar nos países envolvidos. Foi então que a França endureceu ainda mais a posição, usando o desmatamento no Brasil como argumento ambiental para travar o pacto. Em 2020, o Parlamento Europeu também rejeitou a assinatura, alegando preocupações ambientais e democráticas.
A viragem ocorreu em 2023, com o regresso de Lula à presidência
O Brasil recolocou o acordo na agenda, mas rejeitou o adendo proposto pela UE, que previa punições automáticas em caso de incumprimento ambiental. Para o governo brasileiro, tratava-se de uma ameaça à soberania. Houve igualmente resistência à abertura total das compras públicas, vista como um risco para a indústria nacional.
Ainda assim, 2023 e 2024 registaram avanços técnicos. Em dezembro de 2024 foi divulgada a versão final do texto. A expectativa cresceu: Brasil e UE chegaram a admitir a assinatura em dezembro de 2025, durante a Cimeira do Mercosul, no Rio de Janeiro. Mas bastaram poucos dias para o cenário mudar. A ministra francesa da Agricultura, Annie Genevard, afirmou que não apoiaria um acordo que “condenasse” os agricultores franceses. Macron reforçou o aviso: a França não está disposta a ceder facilmente.
Do lado do Mercosul, os interesses estão claros. A indústria teme perder ainda mais terreno num contexto já marcado por desindustrialização — o sector de transformação representa apenas 10,8% do PIB brasileiro. Ao mesmo tempo, setores produtivos veem no acordo uma oportunidade para recuperar competitividade e integrar-se nas cadeias globais de valor.
Organizações industriais da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai defendem que o pacto pode impulsionar inovação, digitalização e maior valor acrescentado nas exportações. Para o agronegócio, trata-se de uma oportunidade histórica de ampliar vendas no mercado europeu.
Na União Europeia, o interesse é igualmente estratégico. O bloco quer reduzir a dependência dos Estados Unidos e da China, garantir abastecimento alimentar e diversificar fornecedores.
A visita recente de uma comitiva de 80 empresas ao Brasil mostra que o sector privado europeu está preparado — e impaciente. Para essas empresas, a abertura do Mercosul representa acesso a consumidores, investimentos e alguma estabilidade num cenário global turbulento.
O entrave continua no mesmo ponto: agricultura
A França teme ver o seu mercado inundado por carne, açúcar e arroz do Mercosul. E, com eleições no horizonte, nenhum governo europeu quer hostilizar agricultores — um dos grupos sociais mais mobilizados do continente.
A semanas do prazo simbólico avançado por Brasil e UE, o futuro do acordo continua indefinido. Mas uma coisa é evidente: depois de 26 anos de negociações, ninguém quer regressar ao ponto de partida.
A assinatura é possível, mas depende de um alinhamento político raro entre parlamentos, governos e sectores económicos.




