Agricultores galegos intercetam camião de transportadora vilacondense para protestar contra a importação de “leite barato”
Um novo episódio de tensão no setor agrícola ibérico marcou a última sexta-feira, 27 de março, no município de Curtis, na Corunha. Um camião-cisterna da transportadora Prodística, sediada em Vila do Conde, foi intercetado por um grupo de agricultores e produtores de gado galegos, que despejaram cerca de 15.000 litros de leite português diretamente na via pública.
A ação, reivindicada pela organização Unións Agrárias, faz parte de uma campanha de protestos contra a entrada massiva de leite proveniente de Portugal e França na Galiza. Segundo os manifestantes, o produto português — que tinha como destino a fábrica da Inleit em Teixeiro — está a ser utilizado pelas indústrias locais para forçar uma descida nos preços pagos aos produtores galegos, contornando as negociações coletivas.
O protesto em solo espanhol visa denunciar o que a Unións Agrárias classifica como uma “entrada massiva de leite estrangeiro” que distorce o mercado local. Os produtores galegos acusam as indústrias de receberem ajudas públicas enquanto, “pela porta das traseiras”, importam leite a preços mais baixos para evitar o cumprimento da Lei da Cadeia Alimentar.
“Estamos fartos de que as indústrias façam o que lhes apetece sem consequências”, refere a organização em comunicado. Os agricultores galegos sustentam que, enquanto a Xunta da Galiza afirma não encontrar indícios de distorção de mercado, a presença constante de cisternas portuguesas à porta das fábricas prova o contrário. Para os produtores da Galiza, esta importação é vista como uma estratégia para impor “contratos de adesão com reduções inaceitáveis e incomportáveis”.

O Impacto para os Produtores de Vila do Conde
Vila do Conde é um dos principais centros de produção leiteira em Portugal, e este incidente coloca em evidência a fragilidade das relações comerciais transfronteiriças. A perda dos 15.000 litros de leite representa um prejuízo direto não só para a transportadora, mas também para a cadeia de valor dos produtores portugueses, que veem os seus canais de exportação serem alvo de atos de sabotagem.
Este bloqueio ocorre num momento em que o setor leiteiro em toda a Europa enfrenta desafios comuns:
- Custos de Produção: Aumento do preço das rações e energia.
- Margens de Lucro: Pressão das grandes superfícies e indústrias para manter preços baixos.
- Concorrência Ibérica: A fluidez do mercado entre Portugal e Espanha gera, ciclicamente, atritos quando os excedentes de um país são escoados para o outro.

Fiscalização e o Papel das Autoridades
A situação levanta questões sobre a livre circulação de mercadorias no espaço da União Europeia e a proteção das frotas de transporte portuguesas no estrangeiro. A transportadora Prodística, sendo uma referência em Vila do Conde, vê-se agora envolvida num conflito social que ultrapassa a mera logística.
As associações agrícolas portuguesas, como a AJAP (Associação de Jovens Agricultores de Portugal) ou a CONFAGRI, têm defendido ao longo dos anos a necessidade de um equilíbrio que proteja o rendimento dos produtores sem comprometer as exportações, alertando que o despejo de leite não resolve o problema estrutural dos preços baixos na origem em ambos os países.




