A despreocupação com a Autoeuropa está a preocupar-me.
Nestas última semanas a Volkswagen anunciou aquilo que muitos já antecipavam: a empresa vai atravessar dificuldades nos próximos tempos.
4 fábricas que podem vir a ser encerradas, possibilidade de 100 mil postos de trabalho eliminados até 2030, eliminação de uma marca e o aviso claro que as vendas vão cair e o número de modelos terão de cair.
Até aqui, um cenário que não nos pode ter surpreendido.
O salto para a eletrificação com o PRR correu mal, foi um erro, porque na minha humilde opinião apontamos o caminho para uma tecnologia que a Europa não dominava ao contrário da China e por isso é hoje normal que os veículos chineses tenham chegado e convencido, já em 2022 venderam cerca de 50.000 veículos em toda a UE e este ano já vamos em 200.000, juntando a isto o facto das marcas europeias não terem lido tão bem o cliente atual (somos cada vez mais de renting em vez de compra) e fundamentalmente não fizeram a compressão de preço para serem competitivos na relação preço/qualidade em relação aos construtores chineses.
E a Volkswagen foi uma das grandes afetadas: As marcas chinesas conseguem competir em todos os seus segmentos, dominam o mercado interno chinês e claramente ainda está fora da corrida na eletrificação.
E então como fica a nossa Autoeuropa neste cenário cinzento?
Inicialmente, e mais importante, temos um dos elementos do consórcio com muitas dúvidas sobre o seu próprio futuro em termos comerciais, o que nos diz que aquilo que podemos esperar em termos de produção (e postos de trabalho) não estão asseguradas.
Temos depois dúvidas sobre o número de modelos que a Volkswagen terá, o que uma vez mais nos diz que não existe total segurança naquilo que serão as necessidades em termos de produção (e postos de trabalho) a curto e médio prazo.
Em paralelo, temos assistido a uma migração de locais de produção automóvel de diversos construtores para o Magreb, com especial foco em Marrocos e Argélia, onde parte dos custos e produção são mais baixos, como alguma da legislação laboral e ambiental não é tão apertada como em solo europeu.
E o pior de tudo, a Volkswagen está neste momento com eleva disponibilidade para fazer cortes altamente impactantes na sua operação e produção, assumindo que fará o que seja necessário para manter a empresa viável.
É um cenário com muitas dúvidas, como muitas incertezas e com muitos fatores que podem correr mal, o que me sugere que num futuro próximo possamos ter decisões por parte da administração da Volkswagen que impactem de forma significativa a Autoeuropa, da redução de turnos a um encerramento, e que afete o maior exportador português e não pensemos que é um processo que demore muito tempo, lembremo-nos só da Renault Setúbal.
Nem no melhor cenário as coisas ficarão como estão hoje.
Por isso, fica a pergunta: o que faremos para evitar este possível acidente?
Queremos iniciar um processo de reconversão/atualização de todos aqueles que lá trabalhavam hoje aproveitando todo o know-how que foi ganho? Iniciar um processo de atração de indústrias para Palmela que no espaço de 2 ou 3 anos consigam absorver estas pessoas?
Queremos redesenhar o capital da Autoeuropa e fazer dela uma fábrica montadora por contrato de automóveis e não estarmos dependentes de uma única marca (como o caso da Magna Steyer na Áustria)?
E agora um sonho antigo: E porque não começar finalmente a discutir uma marca automóvel portuguesa?
A Autoeuropa é demasiado importante para a economia portuguesa para que o seu futuro seja tratado como uma questão exclusivamente empresarial.















