Há uma coisa extraordinária em Portugal: somos um país pequeno com uma enorme capacidade para tornar tudo complicado.
Temos sol, mar, história, território, segurança, universidades, empresários, engenheiros, arquitetos, cientistas, trabalhadores, emigrantes espalhados pelo mundo e uma localização geográfica que metade da Europa gostaria de ter.
E depois temos um balcão.
Atrás desse balcão está quase sempre alguém à espera de um parecer de alguém que, por sua vez, aguarda uma informação de outro departamento, que depende de uma entidade externa, que ainda não respondeu porque o processo está em análise.
Portugal não parou por falta de capacidade.
Portugal especializou-se em esperar.
Esperamos pela Câmara.
Esperamos pelo Estado.
Esperamos pelo tribunal.
Esperamos pelo banco.
Esperamos pelo parecer.
Esperamos pela licença.
Esperamos pelo despacho.
E, enquanto esperamos, discutimos durante três anos aquilo que outros países construíram em dois.
Talvez o nosso maior problema nem seja económico.
É cultural.
Criámos uma sociedade onde errar a tentar continua, demasiadas vezes, a ser mais castigado do que não fazer absolutamente nada.
Quem decide corre riscos.
Quem assina pode ser responsabilizado.
Quem empreende pode falir.
Quem investe pode perder.
Quem propõe algo diferente pode ser chamado de louco.
Quem não faz nada?
Esse, normalmente, chega tranquilamente à reforma.
E talvez esteja aqui uma das maiores perversões do sistema português: transformámos a prudência numa indústria e a responsabilidade numa ameaça.
Depois admiramo-nos de os jovens partirem.
Mas talvez devêssemos fazer a pergunta ao contrário.
Porque haveriam de ficar?
Para passarem os melhores anos das suas vidas a pedir autorização para tentar?
Portugal fala muito de inovação, empreendedorismo, inteligência artificial, transição energética, habitação, indústria e investimento estrangeiro.
Fala extraordinariamente bem.
Somos provavelmente campeões europeus de conferências sobre aquilo que ainda não fizemos.
Criamos estratégias.
Planos estratégicos.
Planos de ação das estratégias.
Comissões de acompanhamento dos planos de ação das estratégias.
E depois aparece alguém com uma ideia, um terreno, capital, investidores e vontade de construir alguma coisa.
Nesse momento começa a verdadeira aventura portuguesa.
Descobrir se pode.
Não quanto custa.
Não se existe mercado.
Não se consegue financiamento.
Primeiro: se pode.
E esta diferença aparentemente pequena explica muito do nosso atraso.
Porque uma economia moderna não vive apenas de dinheiro.
Vive de velocidade.
Capital parado perde valor.
Ideias paradas envelhecem.
Empresas paradas morrem.
Mas há outra característica curiosa deste país.
Portugal desconfia profundamente de quem quer crescer e admira profundamente quem já cresceu.
O empresário português passa frequentemente por três fases.
Quando começa, é louco.
Quando cresce, é suspeito.
Quando triunfa no estrangeiro, torna-se exemplo nacional.
Preferencialmente depois de ter mudado a sede para outro país.
Temos também uma relação estranha com o dinheiro.
Queremos salários europeus, serviços públicos nórdicos, habitação barata, impostos baixos, empresas fortes, investimento público elevado e semanas de trabalho cada vez menores.
Tudo simultaneamente.
Só evitamos aquela pergunta desagradável que nenhuma ideologia consegue eliminar:
quem cria a riqueza para pagar tudo isto?
O Estado não cria dinheiro.
Redistribui riqueza criada pela sociedade e pela economia, organiza serviços essenciais e cria condições — boas ou más — para que mais riqueza possa existir amanhã.
Quando esquecemos a segunda parte, começamos apenas a repartir o que resta.
E um país não pode construir o futuro administrando escassez.
Tem de produzir abundância.
Mas também não compro a narrativa fácil de que tudo é culpa do Estado.
Não é.
Portugal sofre igualmente de pequenos poderes privados, corporativos e sociais.
Há demasiados lugares onde ainda interessa mais saber quem és do que perguntar o que propões.
Há redes.
Há famílias.
Há escritórios.
Há interesses.
Há instituições que se conhecem há décadas.
Há pessoas que almoçam juntas, negoceiam juntas, discutem juntas e depois aparecem publicamente em lados aparentemente diferentes da mesa.
Nada disso significa necessariamente ilegalidade.
Significa uma coisa talvez mais profunda:
Portugal continua a ser, em muitos aspetos, uma aldeia com autoestradas.
E numa aldeia todos sabem quem é o filho de quem.
Talvez por isso sejamos simultaneamente um dos povos mais universais do mundo e uma sociedade ainda extraordinariamente provinciana na forma como olhamos para o sucesso dos outros.
Gostamos do sucesso.
Desde que esteja suficientemente longe.
Cristiano Ronaldo na Arábia é orgulho nacional.
O vizinho de Ferrari continua a levantar suspeitas.
É uma caricatura, evidentemente.
Mas as caricaturas só funcionam quando reconhecemos alguma coisa nelas.
E, apesar de tudo isto, continuo profundamente otimista em relação a Portugal.
Não por ingenuidade.
Precisamente pelo contrário.
Porque se conseguimos construir este país carregando durante décadas esta quantidade de burocracia, lentidão, centralismo, desconfiança e medo de decidir, imaginem aquilo que poderíamos fazer se simplesmente libertássemos parte da energia que já existe.
Portugal não precisa de descobrir portugueses melhores.
Eles já existem.
Estão nas empresas.
Nas universidades.
Nas fábricas.
Nas obras.
Nos hospitais.
Nos laboratórios.
Nas aldeias.
Nas cidades.
E milhões deles estão fora de Portugal.
Talvez a grande reforma nacional nem comece em Lisboa, nem em Bruxelas, nem numa revisão constitucional.
Talvez comece numa mudança muito mais difícil:
deixar de perguntar porque não pode ser feito e começar a perguntar o que é necessário para fazê-lo.
Eu não quero um Portugal onde todos pensem como eu.
Isso seria provavelmente insuportável.
Quero um país onde seja possível pensar diferente, tentar diferente, construir diferente e até falhar diferente.
Um país onde o Estado fiscalize sem paralisar.
Onde a Justiça julgue em tempo útil.
Onde a política governe em vez de permanentemente comunicar.
Onde as empresas criem riqueza sem pretender capturar o poder.
Onde os cidadãos exijam direitos sabendo que alguém terá de produzir os recursos que os financiam.
E onde sucesso deixe de ser uma coisa da qual é necessário pedir desculpa.
Portugal passou demasiado tempo a discutir como dividir o bolo.
Talvez tenha chegado a altura de construir uma padaria.
Porque o problema deste país nunca foi falta de portugueses capazes.
Foi termos criado demasiadas maneiras de lhes explicar por que razão aquilo que querem fazer não pode ser feito.
E eu começo a desconfiar de uma coisa:
Portugal não é pequeno.















