Por que é que Cristiano Ronaldo não parece ter, em Portugal, o respeito correspondente à dimensão que atingiu?
A resposta pode estar numa questão de classe.
Cristiano Ronaldo é indubitavelmente o melhor no que faz. Durante a sua vida, não só trouxe valor às equipas onde jogou e aos negócios onde investiu, como também trouxe valor a toda uma nação através do seu patriotismo, da sua imagem e da sua marca pessoal.
Mas fez tudo isso como um “cavalo de corrida”.
Enquanto correu, enquanto marcou, enquanto ganhou, enquanto bateu recordes, foi celebrado. Mas, quando deixou de apresentar o mesmo desempenho de quando era jovem, começaram as críticas, as dúvidas e a conversa sobre a reforma.
É uma lógica quase brutal.
Como acontece com um cavalo de corrida: enquanto ganha, é extraordinário; quando já não corre à mesma velocidade, começa a ser considerado velho.
É o abate.
E talvez seja precisamente essa a forma como parte da sociedade portuguesa olha para Ronaldo: através daquilo que ele ainda consegue produzir dentro do campo, e não através daquilo que já construiu fora dele.
Mas Cristiano Ronaldo é muito mais do que isso.
É o primeiro bilionário do futebol. É o único português que atingiu esse estatuto financeiro. É uma das pessoas portuguesas mais conhecidas de sempre à escala mundial. A sua marca pessoal ultrapassou há muito o futebol.
E há uma imagem que diz muito sobre esta mudança de escala.
Cristiano Ronaldo esteve na Casa Branca com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, num jantar com o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman.
É uma fotografia que, independentemente de qualquer opinião política sobre as pessoas presentes, mostra o nível de circulação internacional que Ronaldo alcançou.
Então porque é que, apesar de ser provavelmente o maior símbolo português contemporâneo em tantos domínios, ainda é tratado tantas vezes como o “cavalo de corrida aposentado”?
A questão pode estar precisamente naquilo que Pierre Bourdieu explicou.
O habitus e as nossas elites
Bourdieu ajuda-nos a compreender que as sociedades não distribuem reconhecimento apenas com base no dinheiro ou no sucesso.
Existe aquilo a que chamou habitus: um conjunto de disposições sociais que nos faz reconhecer determinadas pessoas como pertencentes a determinados mundos.
E é aqui que Cristiano Ronaldo enfrenta uma barreira que não tem necessariamente a ver com o seu dinheiro.
Ronaldo veio de baixo.
Construiu tudo.
Não nasceu dentro das elites políticas, intelectuais ou económicas tradicionais.
E talvez exista uma dificuldade em aceitar plenamente que alguém que veio de fora desses círculos possa ultrapassá-los em dimensão, riqueza, reconhecimento e influência.
É uma espécie de contradição social.
Todos querem trabalhar para Ronaldo.
Todos querem associar-se à sua imagem.
Todos reconhecem o valor económico da sua marca.
Todos querem uma fotografia.
Todos querem estar perto.
Mas, simultaneamente, existe uma dificuldade em atribuir-lhe o mesmo estatuto simbólico que atribuímos automaticamente a determinadas profissões.
Um médico, um advogado, um professor universitário, um deputado ou um ministro pode rapidamente ser visto como parte da elite num determinado contexto.
Um jogador de futebol, mesmo quando esse jogador é Cristiano Ronaldo, parece encontrar uma barreira invisível.
E isto é particularmente interessante porque o valor económico, mediático e internacional de Ronaldo é, em muitos aspetos, absolutamente incomparável.
Um deputado pode ter uma enorme importância institucional.
Um ministro pode tomar decisões que afetam milhões de pessoas.
Um médico pode salvar vidas.
Um investigador pode produzir conhecimento.
Tudo isso tem valor.
Mas porque razão aceitamos automaticamente que essas profissões conferem determinado estatuto social, enquanto temos dificuldade em fazer o mesmo com alguém que construiu uma das maiores marcas pessoais portuguesas de sempre?
A resposta pode estar menos no que Ronaldo é e mais naquilo que nós estamos habituados a reconhecer como legítimo.
A obsessão portuguesa pelo Estado
E é aqui que entra outra característica da sociedade portuguesa.
Portugal tem uma cultura profundamente marcada pela ideia de que a emancipação e o reconhecimento social passam, em grande medida, pelo Estado.
O Estado continua a ser uma das principais fontes de legitimidade.
É por isso que alguém pode passar alguns anos como deputado da República, ou exercer funções como ministro, e adquirir rapidamente um estatuto de elite.
Não necessariamente porque tenha produzido mais valor do que outras pessoas.
Mas porque ocupou um determinado lugar dentro da estrutura do Estado.
A política funciona, neste sentido, como uma espécie de certificação social.
E isto ajuda a explicar uma situação aparentemente absurda:
um homem pode conquistar o mundo inteiro fora da política e continuar a ser visto como alguém de fora; pode entrar para a política e, de repente, ser tratado como uma figura de Estado.
É aqui que Cristiano Ronaldo se torna um caso verdadeiramente interessante.
E se Ronaldo entrasse na política?
O que teria de acontecer para Ronaldo entrar naquele espaço onde, de certa forma, já se encontra, mas onde ainda não é plenamente reconhecido?
Talvez a resposta seja: política.
Não porque Ronaldo precise da política.
Mas porque, em Portugal, a política continua a ser uma das formas mais poderosas de transformar notoriedade em estatuto institucional.
É por isso que a experiência de Ronald Reagan é tão interessante.
Antes de ser Presidente dos Estados Unidos, Reagan era ator.
E quando alguém fala hoje de Ronald Reagan, dificilmente começa por dizer:
“foi um ator”.
É Presidente dos Estados Unidos.
O cargo e a experiência política transformaram a forma como a história o passou a enquadrar.
E antes de começarmos com o habitual chorrilho de gozo — algo bastante normal numa sociedade que tantas vezes prefere ridicularizar aquilo que foge ao padrão — vale a pena lembrar que a política contemporânea já produziu outros casos de pessoas que chegaram ao poder vindas de fora da política tradicional.
Volodymyr Zelensky era comediante.
Donald Trump era um outsider político vindo do mundo empresarial e da televisão.
O ponto não é dizer que qualquer pessoa famosa está preparada para governar.
O ponto é outro.
A experiência política profissional deixou de ser necessariamente a única porta de entrada para a política.
E talvez seja isso que incomoda.
Porque quando alguém vem de dentro do sistema, sabemos como classificá-lo.
Sabemos quem são os seus pares.
Sabemos quais são os códigos.
Sabemos como funciona a hierarquia.
Mas quando alguém chega de fora e traz consigo uma dimensão económica, mediática e social que o próprio sistema político não consegue controlar, a coisa torna-se muito mais difícil de enquadrar.
Trump experimentou isso de forma particularmente evidente.
A elite política americana nunca o tratou simplesmente como mais um político.
Foi um outsider.
E precisamente por isso encontrou uma enorme resistência de sectores estabelecidos.
Independentemente da avaliação que cada pessoa faça da sua presidência, existe uma mudança evidente: a possibilidade de alguém chegar ao topo do poder político sem ter passado primeiro pelo percurso tradicional da política profissional tornou-se uma realidade incontornável.
E Portugal?
É aqui que a questão de Cristiano Ronaldo deixa de ser uma questão sobre futebol.
A verdadeira pergunta é:
Portugal estaria preparado para eleger um Presidente da República vindo de fora da política profissional?
Essa é a questão que me interessa.
Não é saber se Ronaldo deve ser Presidente.

Não é sequer dizer que um jogador de futebol tem automaticamente competência para governar um país.
É perguntar se a nossa sociedade conseguiria olhar para alguém que construiu uma carreira extraordinária fora das instituições políticas e dizer:
“Esse homem também pode representar-nos.”
Ou se, pelo contrário, precisaríamos primeiro de lhe atribuir uma credencial institucional.
Um cargo.
Um partido.
Um mandato.
Um ministério.
Uma carreira política.
Porque talvez seja isso que realmente distingue as nossas elites.
Não necessariamente aquilo que fizeram.
Mas onde fizeram aquilo que fizeram.
Cristiano Ronaldo conquistou o seu espaço fora do sistema.
Talvez seja precisamente por isso que, para uma parte da sociedade, nunca será completamente aceite dentro dele.
E é por isso que este artigo não é realmente sobre Cristiano Ronaldo.
É sobre nós.
É sobre Portugal.
É sobre a forma como definimos sucesso, estatuto e mérito.
É sobre a nossa dificuldade em reconhecer uma elite que não foi produzida pelas instituições tradicionais.
E é sobre uma pergunta que talvez devêssemos começar a fazer:
Será que Portugal está preparado para eleger um Presidente que venha de fora da política profissional?
Porque talvez Cristiano Ronaldo não precise de entrar na elite portuguesa.















