A chamada “besta de Leste”, fenómeno meteorológico responsável por episódios de frio extremo na Europa, pode voltar a marcar o final de janeiro.
Os principais modelos atmosféricos apontam para um cenário de temperaturas anormalmente baixas, comparáveis aos eventos mais severos das últimas décadas, embora com elevado grau de incerteza quanto ao impacto direto em Portugal.

A situação começou a ganhar força nos últimos dias com sinais de bloqueio atmosférico no Atlântico, um padrão que favorece a descida de massas de ar polar para latitudes mais baixas. Este tipo de configuração já esteve na origem do episódio de 2018, que paralisou vários países europeus com neve, gelo e temperaturas negativas persistentes.
Segundo a análise dos modelos, a evolução da Oscilação de Madden-Julian (MJO) para as fases 7 e 8 poderá reforçar este bloqueio, amplificando o jato polar e permitindo a entrada de ar extremamente frio sobre a Europa. Em termos práticos, falamos de valores entre -15ºC e -30ºC na Europa Central e de Leste, enquanto na Europa Ocidental — onde se inclui Portugal — as mínimas poderiam descer para -5ºC a -15ºC, caso o cenário mais severo se concretize.
Apesar de 2025 ter sido o terceiro ano mais quente de sempre a nível global, os cientistas alertam há anos que as alterações climáticas não eliminam o frio extremo. Pelo contrário, aumentam a frequência de fenómenos extremos, tanto de calor como de frio, devido à instabilidade dos mecanismos de regulação climática.
Para Portugal, o cenário permanece incerto. Os dois principais modelos globais — ECMWF (Europeu) e GFS (Americano) — continuam em desacordo.
O Europeu mantém o frio mais intenso afastado do território nacional, enquanto o Americano insiste numa evolução do anticiclone no Atlântico que empurraria ar continental gelado na direção da Península Ibérica.

Antes disso, já nos próximos dias, está prevista a passagem de depressões frias com descida acentuada das temperaturas e possibilidade de neve em cotas médias, sobretudo no Norte e Centro. Caso o bloqueio se consolide após o dia 20, poderão seguir-se novas entradas frias.
O impacto de um episódio prolongado seria significativo: pressão acrescida sobre hospitais, aumento do consumo energético e risco de falhas locais no abastecimento. A presença de vento forte poderá ainda agravar a sensação térmica, tornando o frio mais severo.
Para já, nada está confirmado. Mas o potencial existe. O final de janeiro será decisivo, e a situação deverá ser acompanhada de perto por autoridades e população.




