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Opinião

A birra no corredor dos brinquedos: o dia em que percebemos que o problema não era a criança

João Costa
21 de Janeiro de 2026 22:27
João Costa
9 meses atrás
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8 minuto(s) de leitura
ministro A birra no corredor dos brinquedos: o dia em que percebemos que o problema não era a criança
João Costa, colaborador do E24
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Há cenas de birras que todos já vimos, mesmo quem tenta fingir que não: uma criança no corredor dos brinquedos, olhos fixos na caixa brilhante, mãos a puxar o carrinho, e uma frase que cai como sentença sobre a fila inteira: “Eu quero isto.”

No início é só insistência. Depois vem o volume. A seguir, o chão. A birra clássica, completa, com direito a teatro e plateia involuntária. E no meio disto tudo, há sempre a mesma pergunta a pairar no ar, como um teste silencioso à maturidade de quem manda: vamos ceder ou vamos educar?

Porque a birra não é sobre o brinquedo. Nunca foi. A birra é sobre poder.

A criança aprendeu uma coisa muito simples, mas perigosamente eficaz: se eu fizer barulho suficiente, se eu me esticar o suficiente, se eu humilhar o adulto o suficiente, o mundo muda de regras para me servir. E, infelizmente, muitas vezes muda mesmo. Não por amor. Não por necessidade. Mas por cansaço. Por vergonha. Para acabar com aquilo depressa.

E é aqui que o supermercado deixa de ser supermercado e passa a ser um espelho do que vemos, vezes demais, fora dele.

Há um tipo de birra que já não acontece entre prateleiras, mas em palcos maiores: nos ecrãs, nos púlpitos, nas campanhas, nas declarações inflamadas. O guião é parecido. O tom é parecido. A estratégia, então, é quase igual: criar ruído suficiente para que o “não” pareça impossível, e o “sim” pareça inevitável.

Quando alguém começa a olhar para um território alheio como se fosse um brinquedo numa prateleira – “fica-me bem, dava jeito, eu quero” – não é diplomacia. É capricho com gravata. E quando se começa a tratar a liderança de um país como se fosse uma cadeira reservada por direito natural, como se a vontade bastasse para justificar a posse, também não é ambição saudável: é a mesma lógica infantil, só que com mais microfones.

E atenção: isto não é sobre gostar ou não gostar de figuras. É sobre reconhecer padrões. O padrão é este: se eu gritar mais alto, se eu repetir mais vezes, se eu empurrar mais forte, o mundo cede.

Ora, quem já teve uma criança a fazer birra sabe o que acontece quando se cede uma vez. Não se resolve nada. Só se marca a próxima birra.

Porque a criança não aprende que foi ouvida. Aprende que foi recompensada. E, pior ainda, aprende que o método funciona. Hoje é um brinquedo. Amanhã é outro. Depois é o doce. Depois é ficar acordada até tarde. Depois é mandar em casa.

A tragédia não é a birra. A tragédia é o adulto que transforma a birra numa ferramenta oficial de negociação.

E numa sociedade, o “adulto” não é uma pessoa. Somos todos. São as instituições, a imprensa, os partidos, os eleitores, os comentadores, os que batem palmas, os que partilham, os que dizem “deixa lá, é só desta vez”, os que normalizam o comportamento porque dá audiências, dá cliques, dá adrenalina.

É aqui que entra o verdadeiro perigo de fazer as vontades às crianças mimadas: não é o brinquedo que custa. É o precedente.

Custa caro, porque ensina uma regra invisível que depois é quase impossível de desaprender: a regra de que quem faz mais escândalo merece mais atenção. A regra de que o bom senso perde para o espetáculo. A regra de que a calma é fraqueza e a chantagem emocional é “força”. E isto contamina tudo.

Contamina a forma como se discute política, como se decide, como se governa, como se trata o adversário. Contamina a forma como se confunde firmeza com agressividade, e liderança com imposição. Contamina até o modo como as pessoas comuns começam a acreditar que, para serem ouvidas, têm de fazer o mesmo: gritar, exagerar, humilhar, ameaçar, dividir.

O adulto responsável no supermercado não é aquele que compra o brinquedo para evitar o embaraço. É aquele que aguenta o embaraço e mantém o “não” com serenidade. Não por maldade. Mas por amor à regra que protege a criança dela própria: a regra dos limites. E limites não são castigo. São estrutura.

Uma criança sem limites não fica livre. Fica perdida. Fica dona do mundo durante cinco minutos e, no sexto, está assustada porque percebe que ninguém manda. E quando ninguém manda, tudo pode acontecer. É aí que nasce o caos: não da maldade, mas da ausência de fronteiras. O mesmo se aplica à vida pública.

Quando se recompensa a birra, o sistema fica refém da próxima exigência. Quando se valida o capricho, o capricho cresce. Quando se transforma a teimosia em virtude, a teimosia começa a exigir coroação. E quando a política se reduz a quem faz mais barulho, a democracia transforma-se num corredor de supermercado onde vence quem se atira primeiro ao chão.

O mais irónico é que isto vem sempre embrulhado em linguagem bonita: “determinação”, “coragem”, “não ter medo”. Mas há uma diferença gigantesca entre não ter medo e não ter limites. Entre coragem e capricho. Entre firmeza e birra. E há outra coisa que aprendemos com crianças: elas testam.

Testam porque querem saber até onde podem ir. E se o mundo não responde com limites claros, elas vão mais longe. Não porque são más, mas porque estão a aprender o mapa do poder.

Por isso, quando vemos figuras públicas a testarem o mundo, a ver até onde conseguem esticar a corda, a ver quantos aceitam o absurdo, a ver quantos engolem o exagero, não é “estratégia genial”. É teste de limites. E a resposta certa não é ceder por cansaço. É parar o carrinho, respirar fundo e dizer: “Não.”

Sem histeria. Sem espetáculo. Sem entrar no jogo. Porque a pior coisa que podemos fazer a uma criança mimada é confirmar-lhe que a birra manda. E a pior coisa que podemos fazer a um país é ensinar-lhe o mesmo. No fim, o brinquedo não importa. O que importa é a lição.

Ou aprendemos que limites são civilização, ou aceitamos viver num mundo onde quem grita mais alto leva tudo — até o que não lhe pertence.

ETIQUETAS:AtitudesBirracriançasdestaquejoao costa

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PorJoão Costa
Natural da zona de Aveiro e a residir na região Centro do país, alia a experiência em serviços web e desenvolvimento digital a uma ligação permanente ao jornalismo e à informação. No E24, partilha notícias com rigor, sentido crítico e proximidade, procurando dar voz aos temas que marcam a comunidade e o quotidiano local.
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