O meu avô, Arlindo Correia, que hoje completaria 85 anos, visitou a Bolívia há várias décadas, na fronteira amazónica com o Brasil.

Falava dessa viagem com um certo orgulho, como quem recorda o esforço de chegar a um lugar remoto, longe de tudo, onde a vida era dura, mas verdadeira.
Dizia que aquela fronteira tinha uma força própria e destacava sempre o lado da Bolívia, um lugar pobre e distante, habitado por pessoas humildes, onde se sentia uma dignidade rara, daquelas que não se explicam, apenas se sentem.
Em breve sentirei o mesmo.
Em 2025, no último domingo, a Bolívia voltou a surpreender o mundo. Nas eleições mais imprevisíveis das últimas décadas, o povo rejeitou a esquerda e a direita, virou as costas a vinte anos de escolhas repetidas, disse basta e escolheu o centro, o equilíbrio.
Rodrigo Paz, um candidato de perfil moderado e discurso simples, em últimos nas sondagens da primeira volta, venceu pela união de quem já não acredita em ideologias, mas ainda acredita no país e no homem.
A Bolívia está a viver o que muitos fingem não ver: um momento em que a fé política se esgota e a realidade exige lucidez.
Um país inteiro aprendeu, à força, que prometer justiça não é o mesmo que criá-la. Que um povo pode ter montanhas de lítio e de outras riquezas, mas continua pobre se não tiver quem saiba transformar riqueza em vida.
Entre 2025 e 2035, a Bolívia vai decidir se quer ser potência ou mártir. Tem o ouro branco, tem riquezas minerais, tem juventude e tem alma. Faltava-lhe apenas o que falta a quase todos nós: confiança e união.
Os bolivianos são um povo de altitude e que sobem montanhas diariamente. Vivem acima das nuvens e abaixo das promessas. São filhos da terra e da resistência. Trabalham no frio, protestam no calor e acreditam em tudo, até no impossível.
Mas agora, a dor falou mais alto do que a ideologia. O estômago e as novas crenças venceram o discurso. O povo deixou de querer “santas promessas” e começou a querer “o santo pão”. E isso é o princípio da maturidade política: quando o povo deixa de pedir milagres e começa a exigir resultados.
O novo presidente e o novo tempo herdam um país exausto, fragmentado e com reservas vazias. Faltam dólares, faltam combustíveis e falta confiança, mas não falta riqueza, nem futuro, nem faltará apoio. As reservas internacionais estão no limite, o câmbio oficial já não reflete a realidade e o mercado paralelo dita o valor da sobrevivência.
Há filas nos postos, escassez de divisas e uma economia que vive entre o esforço e o improviso.
Mas também há a vontade e a oportunidade de provar que a lucidez pode ser revolucionária, de mostrar que governar é resistir com inteligência e que estabilidade e união são a nova forma de coragem.
É este o cenário que Rodrigo Paz encontra, e é daqui que terá de reconstruir o país, com a serenidade de quem conhece o mundo e a coragem de quem nunca deixou de pertencer à sua terra e ao seu povo. A Bolívia pode ser a nova Arábia do lítio ou pode repetir o erro do gás: vender barato, importar caro e continuar pobre. Depende apenas de uma escolha: a de fazer da dor um combustível ou mais uma bandeira.
E Portugal devia olhar para isto com atenção. Porque também nós temos um povo cansado, mas ainda crente.
Temos fé, mas pouca direção. Temos mar, mas falta-nos rumo.
A Bolívia ensina que não é preciso litoral para navegar, basta coragem para não afundar. Mostra-nos que riqueza sem consciência é só matéria e que só a resistência com um propósito comum transforma uma nação.
E talvez por isso aquela viagem tenha ficado gravada no meu avô. Porque a Bolívia, longe de tudo, representa o mesmo que ele sempre acreditou: que o valor de um homem e de um povo mede-se pela distância que é capaz de percorrer para continuar de pé.




