E agora, o futuro? A pergunta paira sobre a Venezuela depois de uma madrugada de explosões, caos e uma operação norte-americana que, segundo Donald Trump, culminou na captura de Nicolás Maduro e da mulher, Cilia Flores.
O país acordou num estado de choque: há relatos de bombardeios em vários pontos, medo nas ruas e um vazio político potencial, já que, apesar do anúncio de Washington, não há sinais claros de controlo efetivo do território por parte dos EUA.
Filipe Oitavem, jornalista do E24, recolheu testemunho que descrevem que a operação — preparada durante meses e executada com forças especiais e ataques a alvos militares — terá neutralizado defesas em torno de Caracas antes de uma incursão que terminou com Maduro levado para a base naval norte-americana USS Iwo Jima.
A missão foi acompanhada em direto por Trump e altos responsáveis, num gesto que, para analistas, pode ter consequências imprevisíveis na região.
No terreno, o impacto foi imediato
Em La Guaira, uma das zonas atingidas, moradores abandonaram casas sem saber para onde ir, após explosões durante a madrugada. Raul Cherbon, professor e residente na cidade, descreveu ao E24 momentos de pânico num testemunho enviado por mensagens e divulgado em vídeo nas redes sociais.
“Escutei três grandes explosões, a casa tremeu por completa, janelas e portas. Saímos todos para a rua sem entender o que acontecia. Era todo mundo desesperado, mulheres com crianças indo de um lado a outro”, relatou.
Segundo o professor, os ataques começaram por volta das 02h00 e cessaram apenas perto das 04h30. “Depois que acabou, ninguém mais conseguiu dormir. Todos estamos em estado de alerta. Tive que abrigar oito companheiros aqui em casa… Foi algo horrível de se vivenciar”, acrescentou.
A imprensa local confirma a incerteza no pós-operação, descrevendo um país onde a captura do líder não significa, por si só, a queda imediata do poder interno.

Trump afirmou que os EUA irão “administrar” a transição e explorar o petróleo venezuelano, mas horas depois da incursão não existe uma autoridade reconhecida capaz de garantir estabilidade — e o risco é o de fragmentação, com disputas entre militares, forças de segurança e grupos armados.

“É precisamente este ponto que define os cenários mais perigosos. O primeiro é o de escalada militar, com retaliações e novas ondas de ataques, num ciclo difícil de conter. O segundo é o de vazio de poder, em que várias estruturas tentam assumir controlo simultaneamente, gerando instabilidade e violência localizada. O terceiro, mais improvável mas possível, é o de negociação rápida com actores internos, abrindo caminho a eleições e a uma transição supervisionada”, destaca ao E24 o jornalista especializado em geopolítica Nuno Cerqueira.
“A Alemanha, por exemplo, pediu uma solução política e apelou a que se evite a escalada e se respeite o direito internacional”, exemplifica.

E a comunidade lusa?
Em Portugal, cresce a preocupação com a comunidade lusa na Venezuela. O Ministério dos Negócios Estrangeiros tem insistido, nas últimas semanas, que não havia “situação que justificasse alarme”, mas a nova ofensiva altera o quadro operacional e obriga a medidas de prudência.
A recomendação, na prática, é a de evitar deslocações, manter-se em local seguro e seguir orientações consulares, numa realidade onde bloqueios, cortes e desordem podem surgir com rapidez.
Hoje, o país vive uma pergunta maior do que Maduro: o que acontece quando uma superpotência derruba um governo, mas não controla o território? A resposta vai depender das próximas horas — e do nível de resistência interna. Para já, o que se ouve é o eco da madrugada: casas a tremer, gente a correr, e um país suspenso entre o medo e o desconhecido.





