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Global

Perguntamos aos cronistas do E24 sobre a queda de Orbán na Hungria e há um ponto comum

Nuno Cerqueira
14 de Abril de 2026 10:51
Nuno Cerqueira
2 meses atrás
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11 minuto(s) de leitura
hungria eleições E24 - 1
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A vitória de Péter Magyar nas eleições húngaras e o fim do longo ciclo político de Viktor Orbán estão a gerar uma reação rara: consenso transversal entre diferentes sensibilidades políticas em Portugal, que apontam o resultado como um sinal claro de mudança democrática com impacto direto no futuro da Europa.

Entre os cronistas do E24, a leitura converge num ponto essencial: o que aconteceu na Hungria não é apenas um fenómeno interno, mas um momento político com repercussões no equilíbrio europeu.

Para HUGO PIRES, especialista em economia circular, o resultado “não diz respeito apenas à Hungria”, mas sim ao modelo de sociedade em disputa.

Durante anos, naquele país foi sendo testado um caminho perigoso: um sistema que se aproximava cada vez mais de uma autocracia, onde direitos e liberdades foram sendo progressivamente limitados, e onde a corrupção ganhou espaço. Um modelo que se afastou do projeto europeu e se aproximou de líderes e ideologias que colocam em causa os valores democráticos. Um modelo que muitos viam como uma ameaça interna ao próprio ideal europeu.

Mas ontem, os húngaros deram um sinal claro. Nasceu uma nova esperança — uma esperança para todos os que acreditam na liberdade, na tolerância e na democracia como valores inegociáveis.

Que a Hungria saiba aproveitar esta nova fase com responsabilidade e visão. E que este momento sirva também de inspiração para o resto da Europa e do mundo: a liberdade exige vigilância, coragem e participação.

Também à direita, o diagnóstico não diverge. O eurodeputado do PSD, HÉLDER SOUSA SILVA, sublinha que os húngaros falaram com clareza ao escolherem uma alternativa à governação de Orbán.

O povo húngaro falou, e falou com a clareza de uma maioria de dois terços. Ao escolher uma alternativa de rutura com os anos de deriva autoritária de Viktor Orbán, os húngaros reafirmaram algo que os eurocéticos teimam em ignorar: que os valores europeus não são imposições tecnocratas de Bruxelas, mas aspirações profundamente enraizadas nas sociedades que compõem a nossa União Europeia, por mais diferentes que sejam as nossas nações.

Enquanto europeísta convicto, saúdo a vitória do meu colega eurodeputado Péter Magyar com a mesma convicção com que defendo, todos os dias, que a Europa é um projeto político assente no Estado de Direito, na separação de poderes e na dignidade das instituições democráticas.

Agora, o trabalho começa a sério: espero que o novo governo húngaro aproveite esta oportunidade histórica para reconstruir pontes com os seus parceiros europeus, alinhar-se com as prioridades que norteiam a nossa ação comum e restabelecer a confiança que foi gravemente erodida ao longo de mais de uma década. A Hungria tem muito a ganhar com a Europa, e a Europa tem muito a ganhar com uma Hungria plenamente comprometida com os seus valores fundadores.

Na mesma linha, RICARDO RODRIGUES GOMES, engenheiro e consultor, vê nesta eleição uma escolha consciente por estabilidade, moderação e respeito pelas regras democráticas.

A vitória eleitoral de Péter Magyar e do partido de centro‑direita TISZA expressa de forma inequívoca a vontade dos húngaros de iniciar um novo ciclo político, assente na confiança nas instituições democráticas e na necessidade de renovação. Este resultado traduz uma escolha consciente pela estabilidade, responsabilidade e moderação, bem como pela necessária existência de transparência, equilíbrio e respeito pelas regras fundamentais da vida democrática.

Ao rejeitar discursos populistas e estratégias baseadas no medo, na polarização e no ataque ao pluralismo, a Hungria enviou um sinal político relevante tanto para o país como para a Europa. A opção por uma via democrática moderada reforça a ideia de uma Europa assente na liberdade, no respeito pelas instituições e na convivência entre diferentes perspetivas. É, efetivamente, um desfecho que sublinha a vitalidade democrática e a importância de escolhas políticas que valorizam o diálogo e a confiança cívica. Neste sentido, creio que podemos afirmar que foi uma vitória da Europa da Liberdade.

Mais sucinto, PAULO CUNHA, eurodeputado do PSD, resume o momento numa palavra: “Vitoriosos”, apontando para um resultado inequívoco.

Primeiramente gostaria de congratular o meu colega no Parlamento Europeu e no grupo PPE, Peter Magyar, pela histórica vitória. O resultado obtido pelo TISZA representa uma enorme vitória para a Húngria, para a Europa, para as instituições democráticas e para o povo húngaro, que foram os maiores vencedores da última noite. Este processo eleitoral que contou com uma participação histórica de aproximadamente 79% evidenciou a vontade de mudança de rosto e de políticas. Não podemos ainda esquecer a Ucrânia, que saiu igualmente vitoriosa deste processo eleitoral e ganhou um novo aliado europeu.

Os maiores derrotas deste processo foram todos os anti europeus, dos que queriam uma Húngria próxima de Leste, nomeadamente da Rússia, dos Patriotas pela Europa, grupo político onde se integra o partido FIDESZ, mas também do CHEGA, grandes aliados de Victor Órban e por quem fizeram uma enorme campanha.

Com esta maioria obtida, espero que Peter Magyar e o seu governo sejam capazes de reaproximar e recentrar a Húngria na Europa, mas também de aplicar as reformas constitucionais necessárias e assim remover da constituição húngara um conjunto de medidas que colocaram a Húngria na rota de países iliberais e cumprir finalmente com o Estado de Direito.

Gestora e Conselheira Nacional da Iniciativa Liberal, MAGDA FERRO introduz uma leitura mais analítica. Considera que a mudança não será tanto ideológica, mas sobretudo de estilo e prática de governação.

No plano interno, as eleições na Hungria representam uma rutura com o ciclo político de Viktor Orbán, ainda que essa mudança não seja tanto ideológica quanto de estilo e prática de governação. Peter Magyar surge como uma figura de direita moderada que não rompe profundamente com a matriz conservadora da sociedade húngara, mas que se distingue sobretudo pela rejeição da lógica de corrupção, clientelismo e concentração de poder que marcou o anterior governo. O principal desafio será, assim, desmontar a teia de influências construída pelo Fidesz no aparelho do Estado — da administração à justiça e à economia — e restaurar padrões mais transparentes e democráticos de governação. Ao mesmo tempo, a pressão interna continuará centrada no custo de vida e na manutenção de políticas sociais, num contexto em que não se antecipa uma viragem ideológica significativa, mas antes uma mudança de método e de credibilidade institucional.

No eixo europeu, o impacto mais imediato e previsível destas eleições deverá sentir-se na forma como a União Europeia gere a questão ucraniana. A saída de Orbán remove um dos principais focos de bloqueio e ambiguidade dentro do espaço europeu, abrindo margem para posições mais coesas, ainda que a Hungria de Magyar mantenha uma postura cautelosa e pragmática. O apoio a Kiev poderá tornar-se mais previsível e alinhado com os parceiros europeus, facilitando decisões conjuntas que antes esbarravam em vetos ou reservas de Budapeste. Ainda assim, este reposicionamento será provavelmente gradual e condicionado por interesses nacionais, num equilíbrio entre maior cooperação europeia e a preservação de alguma autonomia estratégica.

À esquerda, MANUEL PEREIRA, do Bloco de Esquerda, interpreta o resultado como uma rejeição clara de políticas associadas à extrema-direita, ao nacionalismo e à limitação de direitos.

O resultado das eleições na Hungria são um sinal claro de que os povos europeus ainda têm uma capacidade de decisão e pensamento crítico além do que lhes é impostos por canais de comunicação oficiais, redes sociais e constantes intromissões de potências externas.

No dia em que Viktor Orbán saí do poder, devemos refletir que foi o povo húngaro que tirou de cena um agente hóstil e provocador ao projecto europeu e à sua segurança, que durante anos desafiou e promoveu a extrema-direita, o nacionalismo, a autocracia, o uso indevido de fundos europeus, ataque aos direitos LGBT e à liberdade de imprensa e foi um “cavalo de Tróia” de Trump e Putin e dos seus interesses.

Tudo isto se passou e a União Europeia não conseguiu em nenhum ponto criar mecanismos de defesa e de penalização de Estados completamente contrários aos ideais europeus e esta inacção deve-nos fazer refletir sobre que Europa realmente queremos. Espero que hoje seja o primeiro dia de uma nova Hungria e que a multidão que inundou as margens do Danúbio para acompanhar os resultados que amanhã tenham um novo caminho.

ETIQUETAS:democraciae24EleiçõesEuropaHungriaPéter MagyarprincipalViktor Orbán

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