O incêndio que deflagrou no Parque Natural do Douro Internacional no passado dia 15 de agosto provocou uma tragédia ambiental com consequências devastadoras para a conservação do abutre-preto em Portugal.

Dois ninhos foram totalmente destruídos e outros seis ficaram severamente afetados.
A confirmação, a 21 de agosto, da morte da cria Acer, marcada com emissor GPS/GSM, veio agravar ainda mais o cenário de perda e sofrimento.
O início das chamas

Na sexta-feira, 15 de agosto, em pleno feriado, as temperaturas rondavam os 40 ºC e o vento seco favoreceu a propagação rápida das chamas.
O fogo teve origem em Poiares, concelho de Freixo de Espada à Cinta, alastrando-se rapidamente aos municípios vizinhos de Mogadouro e Torre de Moncorvo.
Em poucas horas, o incêndio devastou mais de 15 mil hectares, atingindo zonas de elevado valor ecológico, entre as quais a área reprodutora do abutre-preto.
Com a aproximação das chamas, foi ativado o plano de contingência do projeto LIFE Aegypius Return, que desde 2022 tem reforçado a pequena colónia existente no Douro Internacional.
As equipas da Palombar, do ICNF, da Vulture Conservation Foundation, da Faia Brava e de várias entidades locais atuaram em coordenação para proteger os ninhos e resgatar aves em risco.
Resgate em tempo recorde

Na estação de aclimatação de Fornos encontravam-se seis jovens abutres-pretos. Perante o risco de isolamento dos acessos, as equipas avançaram com o resgate imediato.
Os animais foram transportados em segurança para o CIARA, em Felgar, onde permanecem sob cuidados. Esta operação, realizada em poucas horas, evitou que os abutres fossem consumidos pelas chamas, uma vez que, no dia seguinte, o fogo atingiu a zona da jaula e destruiu parte das infraestruturas de apoio.
O contentor de vigilância, equipado com painéis solares e tecnologia de monitorização, foi totalmente consumido pelo fogo. O campo de alimentação adjacente também ficou destruído, inviabilizando o regresso imediato das aves àquele espaço.
O impacto nos ninhos

A colónia do Douro Internacional contava este ano com oito casais reprodutores – cinco em Portugal e três no lado espanhol. Desses ninhos, cinco tinham crias em desenvolvimento.
Quatro já tinham iniciado voos exploratórios, mas uma permanecia no ninho, demasiado jovem para voar. Após o incêndio, verificou-se que esse ninho foi atingido e a cria desapareceu.
No total, dois ninhos arderam por completo, dois ficaram parcialmente destruídos e quatro plataformas artificiais sofreram danos. Dias mais tarde, o transmissor da cria Acer voltou a emitir sinais. As equipas localizaram o animal já sem vida.
As suspeitas apontam para intoxicação por fumo e cinzas, uma morte lenta e dolorosa. O corpo foi transportado para necropsia no Hospital Veterinário da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Um duro revés para a conservação

O abutre-preto esteve extinto em Portugal durante mais de 40 anos e apenas regressou como nidificante em 2010.
O Douro Internacional acolhe a colónia mais frágil e isolada do país, o que lhe confere um valor estratégico na recuperação da espécie.
A destruição de ninhos e de áreas de alimentação pode levar casais adultos a abandonar o território, anulando mais de uma década de esforços de conservação.
Além do abutre-preto, outras espécies também foram afetadas. Entre elas, o britango (Neophron percnopterus) e a águia-perdigueira (Aquila fasciata), ambas ameaçadas, perderam áreas críticas de caça e reprodução.
Apelo à solidariedade

Os parceiros do projeto LIFE Aegypius Return lançaram uma campanha de crowdfunding para financiar a reposição dos equipamentos destruídos e a recuperação do habitat.
O investimento necessário ultrapassa os 15 mil euros, só para substituir os sistemas de vigilância queimados. O restauro do campo de alimentação e das zonas ardidas exigirá ainda mais recursos.
“Sem apoio, corremos o risco de perder os ganhos alcançados nos últimos anos. Esta colónia é fundamental para a expansão do abutre-preto em Portugal”, refere a Palombar em comunicado.
Portugal em chamas

O mês de agosto tem sido particularmente severo em incêndios. Só em 2025 já arderam mais de 200 mil hectares em território nacional, dos quais 32 mil apenas no último fim de semana. A gravidade da situação obrigou o governo português a acionar o Mecanismo Europeu de Proteção Civil da União Europeia, recebendo apoio de países vizinhos.
No lado espanhol, também houve perdas significativas. Na Serra de São Pedro, em Cáceres, pelo menos 60 ninhos de abutre-preto foram destruídos. Muitas crias ainda estavam nos ninhos quando as chamas avançaram, aumentando a dimensão da tragédia transfronteiriça.
União no terreno

Apesar do cenário devastador, as operações de resgate no Douro Internacional mostraram a importância da cooperação entre instituições e cidadãos. Vigilantes da natureza, bombeiros, GNR, autarquias e organizações não governamentais atuaram lado a lado, num esforço que conseguiu salvar vidas e reduzir perdas ainda maiores.
“Foi a união de todos que permitiu retirar as aves da estação de aclimatação antes que fosse tarde. Mas agora precisamos de apoio para reconstruir”, sublinhou um dos responsáveis do projeto.
Uma luta de longo prazo
A recuperação dos habitats destruídos levará décadas. As arribas queimadas, outrora refúgio de aves raras, estão hoje reduzidas a cinzas. A regeneração da vegetação será lenta e dependerá de medidas ativas de reflorestação e gestão do território.
Mesmo perante este quadro sombrio, os parceiros do LIFE Aegypius Return garantem que não irão desistir. A conservação do abutre-preto, espécie-símbolo da biodiversidade ibérica, continuará a ser prioridade.




