Há datas que não pertencem apenas ao calendário, pertencem à alma de um povo. O 25 de Abril é uma delas. Foi o dia em que o medo recuou e a esperança entrou pelas ruas. Mas a liberdade conquistada nesse dia não foi um ponto de chegada. Foi um ponto de partida cada vez mais exigente, frágil, permanentemente inacabado.
Hoje, as ameaças à liberdade raramente usam farda. Manifestam-se na desigualdade persistente, na precariedade que corrói projetos de vida, na desinformação que mina a confiança e no discurso que normaliza o medo e a exclusão.
O avanço do autoritarismo e do extremismo, mesmo em contextos democráticos, corrói normas básicas: o respeito pela diferença, a confiança nas instituições, o diálogo como método. A polarização transforma adversários em inimigos e empobrece o espaço público, criando terreno fértil para soluções simples para problemas complexos, quase sempre à custa de direitos e garantias.
A isto soma-se uma nova fronteira de risco: a vigilância tecnológica. As ferramentas digitais que facilitam a vida quotidiana podem também ser usadas para monitorizar comportamentos, condicionar escolhas e concentrar poder. Quando a tecnologia avança mais depressa do que as regras que a enquadram, a liberdade torna-se vulnerável e a privacidade, negociável.
É neste contexto que as palavras simples e urgentes enunciadas recentemente pelo Papa Leão XIV, na sua visita à Guiné Equatorial, nos tocam tão fundo: “Que cresçam os espaços de liberdade e que a dignidade da pessoa humana seja sempre salvaguardada.”
A liberdade só é real quando chega a todos, quando se traduz em condições de vida dignas.
É por tudo isto que abril continua a interpelar-nos. E é também por isso que o 1.º de Maio não pode ser visto como separado do 25 de Abril. Em 1974, o primeiro Dia do Trabalhador em liberdade foi uma afirmação coletiva de dois compromissos fundamentais: a exigência de uma liberdade concreta — “a paz, o pão, a habitação, a saúde e a educação”, como cantou Sérgio Godinho — e a confiança num projeto democrático transformador, que viria a consagrar-se na Constituição de 1976, onde igualdade e justiça são parte integrante da própria ideia de democracia.
Passados mais de 50 anos, essas prioridades permanecem na linha da frente das reivindicações de milhões de portugueses. O trabalho digno continua a ser condição essencial da liberdade. Sem segurança no emprego, sem tempo para viver, sem direitos, a liberdade esvazia-se. E a denúncia da guerra, que rapidamente escraviza o trabalho e anula direitos, mantém-se como imperativo ético e político.




