No sábado, o ABC iniciou a competição sénior masculina no Pavilhão Flávio de Sá Leite, com uma vitória arrancada a ferros no último segundo frente ao Póvoa AC.
Antes do apito inicial, o emblema academista prestou homenagem a dois grandes vultos da sua história, formados na sua escola de andebol e que contribuíram para tantos títulos nacionais e sucessos em competições internacionais: Humberto Gomes e Paulo Morgado. O primeiro pela sua retirada aos 48 anos e o segundo pela sua precoce partida com apenas 54 anos.
Porém, seria suposto o ABC arrancar esta temporada noutro local, pois, de acordo com a intenção do Município de Braga, as obras de remodelação do “Sá Leite” deveriam ter iniciado há vários meses. Facto que causará apreensão no seio dos academistas a nível logístico para a realização de treinos e jogos dos seus diversos escalões, masculinos e femininos, que englobam centenas de atletas. Espera-se que não haja atraso adicional na execução da obra, com um prazo previsto de dois anos, a juntar aquele que já se regista ainda antes da obra arrancar, o que impactará fortemente na competitividade do ABC e no seu contributo à sociedade enquanto entidade formadora através do Desporto.

Olhando para a sua história, o ABC tem sofrido muito com a falta de condições para as modalidades praticadas em recinto fechado, como sucedeu com o Basquetebol, Voleibol, Hóquei em Patins e também o Andebol. No final dos anos 60 do século passado, o ringue desportivo do Parque da Ponte, utilizado pelo ABC, tinha piores condições que aquelas que existiam, por exemplo, no Liceu Sá de Miranda. Foi por essa altura que na cidade se pugnou pela construção de um Pavilhão Gimnodesportivo pois a existência do ABC perigava. Barcelos, por exemplo, já tinha o seu pavilhão.
Em meados dos anos 70, a direcção do ABC, ciente das dificuldades económicas de um país saído da ditadura, declinava a construção de um novo pavilhão por vez de uma simples cobertura do ringue do Parque da Ponte, para que fosse possível, pelo menos, treinar com tempo invernoso. Isto, apesar do surgimento na cidade do pavilhão gimnodesportivo da Escola André Soares, mas com rara utilização aos fins de semana e períodos de férias. Aos pouquinhos, e competindo por horários com equipas de futebol de salão, o ABC lá ia utilizando esse espaço desportivo fechado, que, apesar das dúvidas sobre o estado actual do seu piso, poderá ser a solução temporária para o ABC no caso do Pavilhão Flávio Sá Leite fechar efectivamente para obras.
O ABC ainda ambicionou ter o seu próprio pavilhão, em terrenos a ceder pelo município em S. Vítor junto à “Rodovia”, mas, os 1,1 milhões de euros de valor presente estimados para tal empreendimento, iam adiando o sonho de uma casa para as modalidades. Paralelamente, o Plano de Atividades do Município de Braga para 1978, previa a transformação do ringue de patinagem do Parque da Ponte em Pavilhão Gimnodesportivo coberto, mas as obras transitaram para o seguinte ano, e, só em inícios de 1980, se deu a inauguração do Pavilhão Flávio de Sá Leite, com um custo actual de cerca de 1,7 milhões de euros. Entretanto, o orçamento do ABC para a construção do seu próprio pavilhão, já tinha disparado para cerca de 2,8 milhões de euros ao dia de hoje.
Em 1982, as expectativas que o ABC poderia ter com o projecto do Complexo Desportivo da Rodovia sairiam goradas, pois este não previa um pavilhão gimnodesportivo. Por isso, o ABC continuou a alimentar o seu sonho com a angariação de fundos, que eram insignificantes relativamente ao montante indispensável para levantar um novo pavilhão, que fosse ajustado às suas necessidades de formação e de alavancamento competitivo.
No entanto, e num abrir e fechar de olhos, a equipa sénior de andebol do ABC subiu da 3.ª Divisão à 1.ª Divisão Nacional, pelo que, a partir da época 1983/84, apareceram mais defensores do desígnio de um novo pavilhão, que reunisse as condições mínimas para competir frente aos principais emblemas desportivos nacionais. O próprio Governador Civil de Braga deu a informação que, o Governo chefiado por Mário Soares, tinha na agenda a construção de um pavilhão para o ABC com duas naves e 5.000 lugares, junto às Piscinas da Rodovia. No entanto, o emblema academista teria de suportar em 40% o montante total de aproximadamente 2,5 milhões de euros no presente. Uma fortuna incomportável para os depauperados cofres do ABC…

Por isso, o Pavilhão Flávio de Sá Leite começou por ser uma casa emprestada ao ABC, onde, no final da época 1986/87, celebrou o seu primeiro título de campeão nacional. Com tamanho feito, o assunto de um novo pavilhão com as valências necessárias para o ABC voltou à ordem do dia. Assim, e nesse tempo, a recém-inaugurada Grande Nave do Parque de Exposições de Braga (PEB), foi equacionada como a nova casa para o emblema auri-negro. Mas, rapidamente, se constatou que era desajustada à realidade do ABC e também inconciliável com a realização de feiras e eventos para promover o dinamismo económico do concelho e região, no fundo, a razão principal da construção do PEB.
Daí até ao presente, os destinos do ABC e do Pavilhão Flávio de Sá Leite ficaram interligados, com a instalação desportiva a merecer pequenas obras de beneficiação de forma pontual, e em função do enorme desempenho desportivo da equipa de andebol academista. Ainda assim, e apesar o valor sentimental que a “Catedral” tem para os bracarenses simpatizantes do ABC – onde eu me incluo desde que tenho memória – esta é demasiado acanhada para as ambições de um clube que deu o maior feito desportivo ao concelho como Vice-Campeão Europeu, quiçá, apenas igualado pelo 2.º lugar da Liga e Final da Liga Europa por parte do SC Braga.
A exemplos recentes de apoios a outros emblemas desportivos do concelho, como o SC Braga e HC Braga, urje proporcionar condições ao ABC de forma expedita, para que possa aproximar-se dos padrões competitivos de grandes emblemas nacionais, mas, também, ter as melhores condições possíveis para formar os jovens do concelho e da região envolvente. Ainda assim, e rematando, considero que a lotação prevista após as obras – inferior a mil lugares sentados e ao mínimo exigido pela EHF – limitará as ambições internacionais que o ABC venha novamente a ter.















