Especialista Joana Marques alerta para consequências graves na aprendizagem e saúde mental. Workshop “Crescer a Dormir” pretende reforçar literacia de pais e educadores a 14 de março.
Sob o mote “Dormir bem para viver melhor”, as celebrações do Dia Mundial do Sono deste ano trazem a público uma realidade preocupante no contexto nacional. Dados recentes sobre o sono infantil indicam que cerca de 30% das crianças enfrentam dificuldades recorrentes em adormecer, mas o cenário agrava-se quando se analisam os distúrbios associados a hábitos consolidados precocemente, que já atingem 40% dos menores.
Joana Marques, especialista em sono e coordenadora da Pós-graduação em Sono da Criança, Adolescente e Família na ESSATLA, alerta que o descanso dos jovens está a ser perigosamente negligenciado em Portugal. Segundo a especialista, o sono não deve ser visto como um simples detalhe de rotina, mas sim como um pilar fundamental para o desenvolvimento neurocognitivo e emocional. A privação de descanso tem consequências diretas e mensuráveis na capacidade de aprendizagem, na consolidação da memória e nos níveis de atenção, podendo ainda servir de gatilho para patologias graves como a obesidade, a diabetes e alterações comportamentais severas.
O impacto invisível na saúde mental dos pais
A crise do sono não termina no quarto das crianças. A especialista sublinha que a privação de sono prolongada tem um efeito devastador na saúde mental dos pais e cuidadores. Noites sucessivas de despertares noturnos comprometem a qualidade de vida dos adultos, limitando a sua capacidade de resposta ao stress e afetando a dinâmica laboral e social. Esta “epidemia” exige, por isso, uma resposta que vá além da pediatria convencional, necessitando de uma abordagem integrada que envolva a literacia de toda a família.
A necessidade de uma “Cultura do Sono” em Portugal
Atualmente, as questões do sono ainda carecem de uma resposta estruturada no sistema de saúde e ensino. Joana Marques defende que é urgente investir numa “cultura do sono” que comece logo nos cursos de preparação para a parentalidade. As escolas e os profissionais de educação devem também assumir um papel mais ativo, promovendo horários e ritmos que respeitem as necessidades biológicas dos adolescentes e crianças, enquanto os profissionais de saúde necessitam de formação específica para antecipar e diagnosticar estes problemas precocemente.
Estratégias práticas: O caminho para a autonomia
A evidência científica aponta para soluções baseadas na consistência comportamental. Ensinar a criança a adormecer de forma autónoma — colocando-a na cama quando está sonolenta, mas ainda acordada — é a estratégia mais eficaz para que ela consiga voltar a dormir sozinha após os despertares naturais durante a noite. Além disso, a criação de uma rotina curta e previsível (banho, pijama, história) e a remoção total de dispositivos eletrónicos do quarto são medidas cruciais para garantir a qualidade do descanso.
Workshop “Crescer a Dormir”
Para ajudar a combater esta falta de literacia, a ESSATLA promove no dia 14 de março, entre as 10h00 e as 13h00, o workshop online “Crescer a Dormir: o ABC para noites longas e tranquilas”. Orientado por Joana Marques, o evento é dirigido a pais, professores e profissionais de saúde, explorando temas como a organização das sestas, a higiene do sono e estratégias práticas para lidar com a resistência na hora de deitar.



