Protótipo matriculado pela Adamastor circula agora nas ruas do Porto; modelo com motor V6 Ford Performance prepara-se para a produção em série
O surgimento do Adamastor Furia nas vias públicas da região do Porto marca um ponto de inflexão na história industrial portuguesa, sinalizando a transição de um projeto de engenharia ambicioso para um produto comercial de luxo em fase final de validação. Este veículo, o primeiro superdesportivo de luxo com ADN integralmente português, representa não apenas o culminar de mais de uma década de desenvolvimento técnico da Adamastor Advanced Technologies, mas também a afirmação de Portugal como um polo capaz de produzir veículos de ultra-performance num segmento dominado por marcas históricas italianas, alemãs e britânicas. A circulação do protótipo número 1, ostentando a matrícula de testes “400001” emitida pelo Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), é o testemunho visual de que a fase de simulação digital e testes em circuito fechado deu lugar à confrontação com a realidade complexa e imprevisível das estradas nacionais.
A escolha da região do Porto para estas validações finais não é meramente simbólica; é uma decisão pragmática baseada na proximidade das instalações da empresa em Perafita e na necessidade de testar o comportamento térmico e dinâmico do carro em ambientes urbanos densos, onde o para-arranca e a variabilidade térmica impõem desafios que raramente são replicados no ambiente controlado de um autódromo. Este relatório detalha a arquitetura técnica, a evolução das especificações de potência e a importância estratégica deste projeto para o panorama automóvel global.
O Advento da Indústria de Superdesportivos em Portugal e o Contexto da Adamastor
A Adamastor não surgiu de forma espontânea no mercado de superdesportivos; a sua fundação em 2010 estabeleceu as bases para o que seria uma jornada de aprendizagem através da competição. Inicialmente focada na construção de carros de corrida puros, como o P003RL, a marca acumulou um conhecimento profundo sobre estruturas de fibra de carbono e dinâmica de suspensão antes de tomar a decisão estratégica, em 2018, de desenvolver um veículo de estrada que pudesse rivalizar com os expoentes máximos do setor. Esta evolução reflete uma tendência observada em fabricantes como a McLaren ou a Koenigsegg, que utilizaram o conhecimento das pistas para informar a criação de modelos de rua altamente sofisticados.
A diferenciação da Adamastor reside na sua abordagem vertical. Ao contrário de tentativas anteriores em Portugal que recorriam a chassis e componentes de prateleira de outros fabricantes, o Furia foi desenhado em torno de um monocoque de fibra de carbono próprio, permitindo uma integração perfeita entre a mecânica, a eletrónica e a aerodinâmica. O nome “Adamastor”, inspirado na figura mítica que guardava os mares desconhecidos n’Os Lusíadas, é uma metáfora para a coragem necessária para entrar num mercado onde a barreira de entrada não é apenas o capital, mas a credibilidade tecnológica.
Arquitetura do Motor e Potência: Da Base Ford Performance à Preparação Extrema
O coração do Adamastor Furia é uma unidade motriz de seis cilindros em V (V6), com 3,5 litros de cilindrada e sobrealimentação por dois turbocompressores (biturbo), fornecida pela Ford Performance. Esta motorização é amplamente reconhecida pela sua aplicação no Ford GT moderno, onde demonstrou ser uma plataforma robusta e capaz de entregar densidades de potência excecionais para um bloco de produção. É fundamental esclarecer que, embora algumas publicações tenham mencionado erroneamente uma arquitetura V8 em comunicados recentes, os dados técnicos oficiais e a parceria estabelecida com a Ford confirmam a configuração V6 como a espinha dorsal do projeto.
A evolução dos números de potência do Furia reflete o amadurecimento do projeto e a ambição da marca de oferecer diferentes níveis de performance. Inicialmente, a versão de estrada foi anunciada com uma potência superior a 650 cv e um binário de 571 Nm. No entanto, à medida que os testes no Autódromo Internacional do Algarve avançaram, a Adamastor revelou que o potencial de afinação do motor Ford Performance permitiria patamares significativamente mais elevados para as variantes de pista ou edições especiais de ultra-performance.
| Parâmetro Técnico | Especificação de Base (Road) | Objetivo de Performance Máxima |
| Motor | V6 3.5 Biturbo Ford Performance | V6 3.5 Biturbo Preparado |
| Potência Máxima | ~650 cv a 750 cv | Até 1050 cv |
| Binário Máximo | 571 Nm a 1000 Nm | 1100 Nm |
| Aceleração (0-100 km/h) | 3,5 segundos | 2,7 segundos |
| Aceleração (0-200 km/h) | 10,2 segundos | < 8,5 segundos (est.) |
| Velocidade Máxima | > 300 km/h | > 350 km/h |
A discrepância observada entre os 650 cv standard e os 1050 cv mencionados nos comunicados mais agressivos deve ser entendida como a diferença entre a fiabilidade necessária para um veículo de estrada (garantindo emissões e longevidade) e a configuração de “performance extrema” da marca. Atingir os 1050 cv num bloco de 3.5 litros exige uma preparação profunda, que inclui a modificação dos turbocompressores, sistemas de refrigeração sobredimensionados e uma gestão eletrónica capaz de lidar com pressões de sobrealimentação significativamente superiores às de fábrica. O binário de 1100 Nm coloca o Furia num território onde a gestão eletrónica da tração se torna crítica, especialmente num veículo de tração traseira com um peso inferior a 1100 kg.
Engenharia de Materiais e Chassis Monocoque
A leveza é o pilar central da performance do Furia. Com um peso a seco que se situa entre os 1050 kg e os 1100 kg, o rácio peso-potência do veículo é comparável ao de protótipos de competição de Le Mans. Esta proeza é alcançada através do uso extensivo de materiais compósitos de fibra de carbono em toda a estrutura. O chassis monocoque, que integra um rollbar interno, oferece uma rigidez torsional superior, essencial para manter a geometria da suspensão sob cargas laterais elevadas.
A Adamastor Advanced Technologies não se limitou a moldar a fibra de carbono para fins estruturais; utilizou-a também para componentes acessórios, incluindo o depósito de combustível e elementos da carroçaria, garantindo que cada grama de peso desnecessário fosse eliminado. Esta obsessão com a massa mínima permite que o Furia utilize pneus de menores dimensões do que os seus rivais mais pesados, o que por sua vez reduz a massa não suspensa e melhora a reatividade da direção e da suspensão.

A longo prazo, a ambição da Adamastor estende-se à competição internacional de endurance. O CEO Ricardo Quintas afirmou que a marca continua a avaliar a participação em campeonatos oficiais, o que exigiria uma homologação adicional pela FIA. A ironia regulamentar dita que a versão de competição terá menos potência (cerca de 500 cv) do que a de estrada, devido às regras de Balance of Performance (BoP) aplicadas nas categorias GT, o que significa que os proprietários da versão de rua terão nas mãos o expoente máximo do potencial técnico do motor Ford Performance.
O projeto Furia serve também como uma montra para a divisão “Advanced Technologies” da empresa. Ao demonstrar competência na produção de carroçarias de carbono e sistemas de suspensão complexos para o seu próprio supercarro, a Adamastor posiciona-se como um fornecedor de engenharia de elite para outros clientes industriais com necessidades específicas.




