Na semana passada fomos uma vez mais abalados com as declarações de Cristina Ferreira que suavam a desculpabilização de um grupo de 4 indivíduos que violaram uma menor.
E Portugal indignou-se com a apresentadora, mas sou da opinião que mais do que indignação com ela, a indignação deve ser mais ampla, ao nível de nos indignarmos com os programas de manhã, verdadeiros bastiões da “normalização da ignorância”.
Senão vejemos.
Dirigidos para uma parte vulnerável da nossa sociedade, os nossos seniores, que muitas vezes têm apenas a televisão como companhia, ou só conseguem ter a televisão como distracção e input cultural que lhes permite descobrir algo mais, aquela parte da população que hoje vive afastada da intervenção comunitária, arremessados para o fatalismo do final de vida na invisibilidade e da inutilidade, os programas da manhã têm hoje um relevante papel social e informativo para milhões de portugueses diariamente.
São programas que tratam com a mesma credibilidade o cientista investigador da Universidade do Minho com alguém que acredita que a terra é plana, que discutem com uma certeza quase científica o que as cartas de Tarot supostamente antecipam, que dão palco ao Zézé Camarinha e seus compinchas como a seguir falam de uma forma sentida a senhora com uma doença rara da qual ainda não temos cura.
E depois estes programas têm sempre a sua “parte criminal”.
Foram os protótipos do modelo CMTV, basculhar os crimes de proximidade que os telejornais dos canais generalistas não mostram, trazer a emoção dos directamente envolvidos no seu estado mais cru e opinar sobre o que corre mal, o que está de “mal neste país”, o que deveria ser feito por alguém acima, a lei que não devia permitir isto, o “andam todos a gamar” que ouvimos em muitos bancos de jardim deste país repetido dia após dia, por especialistas, ex-profissionais, psicólogos, criminólogos, etc.
Não é uma abordagem jornalística, é uma abordagem de conversa de café que alimenta a percepção do ouvinte alimentando de mais factos adaptados a essa mesma percepção fazendo aumentar essa percepção como uma realidade instalada e sem possibilidade de refutamento, exponenciando problemas da vida do dia-a-dia para níveis claramente exagerados, em resumo, criar uma realidade alternativa em que existe apenas o “bem” e o “Mal”, é a espectacularização da dor e do medo.
É uma abordagem também usada pela Direita Populista, não devendo por isso ser estranho que alguns dos convidados/especialistas desta rubrica em específico acabaram por alimentar as fileiras da Direita Populista.
E o caso de Cristina Ferreira esta semana é apenas mais um resultado desta forma de fazer televisão e do que são atualmente os programas da manhã.
Afinal a rapariga de 16 anos porque é que se meteu nisto, ela sabia para o que ia, os rapazes estavam animados por isso podem não ter ouvido o “não”, a rapariga quando chegou ao hospital não falou logo da violação, todos sabemos que as raparigas são altamente atraídas por influencers que têm muitos seguidores, se o tribunal ainda está a julgar é porque ainda não existe clareza e se nem sequer um vídeo completo da violação para mostrar em tribunal.
Tudo isto foi disto no “Dois às Dez”, e se isto lhe parece o discurso de um membro da “manosfera machista” retrógada não é por acaso.
É a desculpabilização do agressor homem pela sua juventude, é eternizar a culpa das mulheres nos casos de violação. É culpabilizar a rapariga que queria ter um encontro romântico com alguém que ela admirava e desejava porque não foi casta e recatada como a mulher deve ser.
É o programa da manhã a querer alimentar essa imagem estereotipada do lugar da mulher em parte da sua audiência.
Por isso, o problema não é da Cristina Ferreira mas sim do facto dela nunca poder ir contra um dos princípios básicos do programa que lhe paga o chorudo ordenado: não digas nada que as pessoas não queiram ouvir.
Aproveito então para deixar a minha homenagem ao “Regiões” à Dina Aguiar, que fez real serviço público e social, levando a cabo durante anos um programa para um público senior com qualidade, com rigor, com informação, com contacto com as raízes portuguesas, em resumo, com elegância.




