Portugal continental não vai ter descanso do mau tempo.
A partir desta noite a chuva intensa volta a agravar-se, sobretudo no Norte e Centro, mantendo elevados os riscos de cheias, inundações, deslizamentos de terras e acidentes, num território já fragilizado pela sucessão de tempestades das últimas semanas.
Com os solos saturados a níveis críticos, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) prevê novos períodos de precipitação persistente, associados à passagem de várias ondulações frontais ligadas a depressões no Atlântico Norte.
O cenário levou à emissão de avisos meteorológicos em 16 distritos, nove sob aviso amarelo e sete sob aviso laranja.
Segundo a meteorologista Alexandra Fonseca, a situação vai agravar-se já nas primeiras horas de terça-feira. “A partir da meia-noite entra em vigor o aviso amarelo, mas a partir das seis da manhã os distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Vila Real, Aveiro e Viseu passam a aviso laranja, devido à persistência e intensidade da precipitação”, explicou.
Apesar de poderem ocorrer curtos períodos de acalmia, sobretudo ao final do dia, a tendência é de agravamento. Na quarta-feira, a passagem de novas superfícies frontais deverá provocar picos de precipitação, acompanhados por vento mais forte, com rajadas significativas no litoral Norte e nas terras altas, cenário que poderá justificar novos avisos meteorológicos.
A Proteção Civil mantém todos os dispositivos em estado de vigilância. O comandante nacional, Mário Silvestre, voltou a reforçar os apelos à população, sublinhando que o risco se mantém elevado porque “não há tempo para os solos drenarem a água acumulada”. Cada novo episódio de chuva aumenta a pressão sobre encostas, linhas de água e infraestruturas.
Na quinta-feira, o tempo deverá dar ligeiras tréguas, com a precipitação a assumir a forma de aguaceiros e uma descida da temperatura, associada à entrada de uma massa de ar mais frio. Ainda assim, os riscos não desaparecem de imediato.
Rio atmosférico prolonga instabilidade
Desde a semana passada, Portugal está sob a influência de um “rio atmosférico”, fenómeno que explica a persistência da chuva durante vários dias consecutivos. De acordo com o climatologista Mário Marques, trata-se da passagem contínua de depressões alimentadas por grandes quantidades de vapor de água provenientes de latitudes subtropicais.
“Não é um fenómeno raro no inverno, mas o problema surge quando ocorre sobre solos já saturados e estruturas debilitadas”, alerta. A água acumulada aumenta significativamente o peso do solo. “A terra molhada pode pesar quatro a cinco vezes mais do que seca, o que reduz drasticamente a estabilidade das encostas e aumenta o risco de deslizamentos, abatimentos e queda de blocos”, explica.
O especialista sublinha que as alterações climáticas não explicam tudo. O ordenamento do território deficiente, a ocupação de zonas de risco e o aumento das infraestruturas expõem cada vez mais pessoas e bens a estes fenómenos. “Há mais energia na atmosfera, mas também há mais construções, mais equipamentos e mais mobiliário urbanovulnerável”, aponta.
Morte em Leiria agrava balanço das tempestades
Funcionário morre eletrocutado durante reparação da rede elétrica em Leiria
Os efeitos do mau tempo continuam a fazer vítimas. Em Leiria, um homem morreu esta segunda-feira durante trabalhos de reposição da rede elétrica, alegadamente após sofrer uma descarga elétrica. Um segundo trabalhador ficou ferido e foi transportado para o hospital.
O concelho foi um dos mais afetados pela passagem da depressão Kristin, que deixou milhares de pessoas sem eletricidade, água e comunicações. Este acidente eleva para mais de uma dezena o número de mortos associados, direta ou indiretamente, às sucessivas tempestades que têm atingido o país.
Desde janeiro, Portugal tem sido atravessado por um autêntico comboio de depressões, com destaque para Harry, Kristin, Leonardo e Marta, deixando um rasto de destruição, prejuízos elevados e um território cada vez mais vulnerável a cada novo episódio de chuva.




