“Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança”, Hannah Arendt
Sim, sou anti-sistema. O Rei vai nu, e é preciso denunciá-lo. A modernidade trouxe-nos coisas fabulosas, mas está a destruir o Planeta e a deixar demasiadas pessoas para trás. Durante muitos anos vivemos uma mentira, alimentamos a ilusão de estar a caminhar para um mundo sustentável e mais justo. Deixamos derreter as nossas carteiras e os nossos cérebros com confortos artificiais que nos alienaram da natureza e das nossas consciências. Deixamos que a política fosse sequestrada pelos interesses económicos dos todo-poderosos. A boa notícia? Estamos a acordar para a realidade e finalmente já não são apenas os jovens ativistas a denunciar a mentira em que vivemos.
Veja-se o discurso lúcido e muito aplaudido do primeiro-ministro do Canadá no encontro em Davos.
A virtude do Chega e de outros movimentos populistas foi perceber a podridão em que estamos e usar a bandeira do anti-sistema para capturar o voto dos humilhados e esquecidos. São necrófagos que se pretendem alimentar dos despojos das nossas democracias moribundas. Mas não tenham ilusão, eles são a pior caricatura do nosso sistema. Levam a demagogia aos limites, elegem bodes expiatórios, querem aproveitar o descalabro para instalar um sistema ainda mais totalitário do que o atual.
António José Seguro, pelo contrário, optou pela bandeira da esperança. É um candidato “fora do sistema”, e desprezado pelo próprio sistema, por denunciar o triste estado das coisas. Conforme reconheceu em 2014, “há, em Portugal, um partido invisível, que tem secções sobretudo nos partidos de Governo, que capturou partes do Estado, que tem um aparelho legislativo paralelo através dos grandes escritórios de advogados, e que influencia ou comanda os destinos do país.” De acordo com o insuspeito João Miguel Tavares, Seguro está “suficientemente dentro para perceber como as coisas funcionam; suficientemente fora para não se deixar contaminar por elas.”
A bandeira da esperança com que Seguro nos acena é a de elevar a democracia, de mobilizar o País para os desafios que enfrentamos, de segurar o barco neste mar turbulento. Não sei se ele, ou alguém, esteja à altura do momento. Porque talvez seja tarde demais, e o colapso político, social, ecológico e económico seja inevitável. Quando se enfrentam limites impostos pela Natureza e pela paciência humana, há consequências.
Conforme escrevo no meu livro acabado de publicar – Um Mundo sem políticos – “eu aposto numa sociedade sem os atuais políticos, déspotas e subservientes, como a melhor das saídas possíveis para as crises e os seus flagelos. Ou, se preferirem, como a melhor das entradas num outro mundo. Aposto numa sociedade governada por uma democracia direta, em que na realidade todos nós somos políticos. No lugar dos políticos profissionais, viciados em poder, acredito num mundo de políticos amadores. Amadores das suas comunidades.”

Irei votar Seguro nestas eleições, por medo do Chega e da sua base de apoio neonazi, mas acima de tudo por acreditar que o novo Presidente possa gerar um debate amplo para uma reforma profunda do nosso sistema democrático, que devolva a Democracia ao Povo. Sem esse reencontro entre a política e os cidadãos, todas as tentativas de andar a resolver problemas isolados, seja na saúde ou no ambiente, serão sempre infrutíferos e até contraproducentes.

O voto em Seguro na primeira volta foi mais significativo no interior do País, onde justamente a participação eleitoral mais cresceu. Sinal de um País abandonado que está a acordar e começa a acreditar em si próprio. O futuro só pode ser brilhante.




