Nos arredores de Lisboa, uma antiga zona industrial renasceu como uma biorrefinaria de ponta dedicada ao cultivo de microalgas.
Este projeto europeu, financiado pelo programa MULTI-STR3AM, promete transformar a forma como o mundo produz proteínas, gorduras e pigmentos — substituindo ingredientes convencionais por alternativas mais sustentáveis.
As microalgas são organismos unicelulares capazes de produzir compostos nutricionais com baixo consumo de água e sem necessidade de terras aráveis. “Podem ser cultivadas em locais impróprios para a agricultura, contribuindo para separar a produção alimentar da terra”, explica Mariana Doria, diretora da empresa portuguesa A4F – Algae for Future, que coordenou a iniciativa entre 2020 e 2025.
O projeto, apoiado pela Circular Bio-based Europe Joint Undertaking, junta investigadores e empresas de vários países. O objetivo é criar uma economia circular baseada em biotecnologia e com baixas emissões de carbono.
Na biorrefinaria lisboeta, as microalgas crescem em fotobiorreatores e tanques de fermentação. Depois são processadas para extrair proteínas, lípidos e pigmentos, num sistema que reutiliza CO₂ industrial e águas residuais tratadas. A instalação produz cerca de 10 toneladas de biomassa por ano.
A Flora Food Group, multinacional holandesa do setor alimentar, é uma das parceiras. “As microalgas são uma das respostas para uma alimentação saudável e sustentável”, afirma Rebecca van der Westen, tecnóloga sénior da empresa.
Entre os resultados estão óleos ricos em beta-caroteno, proteínas para rações animais e cápsulas de libertação controlada de fragrâncias.
Doria sublinha que o desafio agora é escalar a produção. “Algumas estirpes são simples de ampliar; outras exigem novos métodos de cultivo.”
Os ingredientes desenvolvidos estão em fase de testes antes da chegada ao mercado. Van der Westen é otimista: “As microalgas farão parte da nossa dieta. É só uma questão de tempo.”

O que são microalgas e por que importam
As microalgas são organismos microscópicos que realizam fotossíntese e existem há mais de mil milhões de anos. Encontram-se no mar, em água doce e até em águas residuais. Com mais de 50 mil espécies conhecidas, desempenham um papel essencial no equilíbrio ecológico e na base das cadeias alimentares marinhas.
Além de armazenarem dióxido de carbono (CO₂) e ajudarem a mitigar as alterações climáticas, estas microfábricas naturais podem descontaminar águas, produzir biocombustíveis e enriquecer alimentos e cosméticos. Segundo o Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), as microalgas são responsáveis por cerca de 50% da fotossíntese global, capturando até 100 gigatoneladas de CO₂ por ano.
O seu potencial vai muito além do ambiental. Com alto teor de proteínas, ácidos gordos ómega-3, vitaminas e minerais, são consideradas uma alternativa sustentável às fontes tradicionais de proteína. Em projetos europeus como o ProFuture, investigadores testam a incorporação de microalgas em pães, cremes e doces, avaliando a aceitação dos consumidores.
“Esses organismos minúsculos podem ajudar a redefinir a alimentação do futuro”, resume a cientista Milagros Rico Santos, da Universidade de Las Palmas de Gran Canaria.




