O presidente da Associação Empresarial de Braga (AEB), Daniel Vilaça, reconhece que o comércio no centro histórico enfrenta dificuldades crescentes, mas rejeita a ideia de decadência que voltou a ganhar força após o encerramento pontual de algumas lojas de marcas conhecidas.
Para o dirigente associativo, a leitura feita nas últimas semanas é exagerada e ignora a realidade do território: o centro está vivo, com dinâmica comercial e cultural, embora sob pressão, sobretudo pelo aumento das rendas.
“Há uma narrativa de decadência que tem circulado e que não corresponde à realidade”, afirma Daniel Vilaça, defendendo que o centro histórico continua a ser um espaço “vibrante” e com identidade própria.
O presidente da AEB descreve o coração da cidade como um verdadeiro património vivo, marcado por uma forte presença de comércio, cultura e vida social, e sublinha que o encerramento de algumas lojas não pode ser analisado isoladamente, sob pena de alimentar perceções negativas e distorcidas.
Segundo o líder associativo, Braga tem características únicas, como a maior zona pedonal do país, e mantém um centro com capacidade para atrair visitantes e consumidores. Ainda assim, admite que o comércio tradicional enfrenta mudanças profundas, que obrigam a ajustar modelos de negócio e a procurar novas formas de competir.
Mudanças globais a bater à porta do comércio tradicional
Daniel Vilaça lembra que os problemas do comércio local não são exclusivos de Braga. A transformação dos hábitos de consumo, o crescimento acelerado do comércio online e as decisões estratégicas de grandes marcas são fenómenos globais que afetam centros históricos em várias cidades.
“Não podemos vender hoje como vendíamos há 10 ou 20 anos”, sublinha, defendendo que a adaptação e a inovação são indispensáveis para garantir a sobrevivência e competitividade das lojas tradicionais.
O dirigente associa este contexto a uma mudança estrutural na forma como as pessoas compram: há menos fidelização, mais compras digitais e menor dependência do comércio de rua. Isso, diz, obriga a repensar ofertas, horários e experiência do consumidor. Mas o impacto não se distribui de forma igual: as rendas estão a transformar-se no problema central.
Rendas elevadas e especulação: o principal obstáculo
Apesar de reconhecer o peso desses fatores externos, Daniel Vilaça é direto ao identificar o maior entrave ao comércio no centro histórico: as rendas comerciais extremamente elevadas e em constante crescimento. Na Rua do Souto, uma das principais artérias comerciais, os valores podem atingir entre sete e oito mil euros mensais, criando um ambiente que limita a diversidade e torna inviável a permanência de muitos negócios.
“Este é o maior entrave ao desenvolvimento do comércio no centro histórico de Braga. A especulação imobiliária está a afastar comerciantes e a limitar a renovação do tecido comercial”, alerta o presidente da AEB.
A pressão, acrescenta, não atinge apenas pequenos comerciantes: afeta também marcas mais consolidadas, num cenário em que o custo fixo pode ultrapassar a margem de lucro.
AEB propõe medidas e articula com a Câmara de Braga
Para mitigar os efeitos da pressão imobiliária e aumentar a atratividade do centro histórico, a AEB diz estar a trabalhar em articulação com a Câmara Municipal de Braga, apresentando medidas concretas para apoiar o comércio e estimular a renovação da oferta. Entre as propostas apontadas por Daniel Vilaça estão:
Estacionamento gratuito durante duas horas para compras superiores a 20 euros, incentivando a circulação de clientes;
Reforço da campanha regional “Centro Braga – Soa a Comércio com História”, para consolidar a marca do centro histórico e captar consumidores;
Mais dinamização de eventos culturais, experiências gastronómicas e rotas temáticas, com o objetivo de aumentar o fluxo de visitantes e prolongar a permanência;
Criação de um programa de empreendedorismo no comércio, focado na abertura de novos negócios, atração de conceitos diferenciadores e apoio à sucessão empresarial;
Sistema de incentivos municipais para modernização de lojas históricas, preservando identidade e promovendo adaptação às novas exigências.
Daniel Vilaça sublinha ainda uma vantagem que considera decisiva: a existência de vários parques de estacionamento na zona central. “O facto de termos estacionamento mesmo no coração da cidade torna o centro histórico mais atrativo, mais cómodo e de muito mais fácil acesso”, afirma.
Consumidores e comerciantes como peças-chave
O presidente da AEB faz questão de destacar o papel dos comerciantes bracarenses, que classifica como “um dos maiores trunfos da cidade”.
Para Daniel Vilaça, Braga tem condições para manter um comércio “com alma”, sustentado pela criatividade e resiliência de quem mantém lojas abertas no centro histórico. Também atribui aos consumidores um papel determinante: cada compra local ajuda a manter empregos, a reforçar a economia e a preservar a vitalidade social e cultural do centro.
A mensagem final é clara: o centro histórico de Braga não está a desaparecer, está a mudar. “Em vez de alimentarmos narrativas negativas, precisamos de trabalhar juntos”, afirma Daniel Vilaça, defendendo políticas públicas mais inteligentes, inovação comercial e compromisso coletivo.
“O futuro do centro depende de todos: comerciantes, instituições e consumidores”, conclui.




