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Opinião

Ascensão e Declínio: O desafio socialista. Entre o legado histórico e a urgência de se reinventar para um país que mudou

Hugo Pires
6 de Dezembro de 2025 19:40
Hugo Pires
7 meses atrás
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9 minuto(s) de leitura
Hugo Pires socialista
Hugo Pires - Arquitecto, curador de economia circular e militante do PS
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Mário Soares, António Guterres, José Sócrates e António Costa foram, em épocas distintas da história contemporânea portuguesa, Primeiros-Ministros socialistas.

Em 51 anos de democracia, o Partido Socialista governou 26; e, nos últimos 30, esteve à frente dos destinos do país cerca de 22 anos.

Mário Soares, um dos fundadores do Partido Socialista na clandestinidade, foi, sem dúvida, a figura política mais relevante do PS. Esteve preso várias vezes, exilou-se, lutou com coragem pelo fim da ditadura e evitou, no período do Verão Quente de 1975, que Portugal caísse numa ditadura comunista. Foi Primeiro-Ministro por duas vezes e deixa como legado o contributo decisivo para a consolidação da democracia, a desmilitarização da política e a afirmação da pluralidade partidária. Além disso, geriu o país numa situação orçamental muito difícil, implementou planos de austeridade, iniciou o processo de integração na CEE (atual União Europeia) e lançou as bases do Serviço Nacional de Saúde.

António Guterres surge depois de um longo mandato de Cavaco Silva e duas maiorias absolutas do PSD. Deixa um legado de forte crescimento económico, de adesão ao euro, de investimento na educação — a sua principal paixão —, a criação do Rendimento Social de Inserção, o reforço do SNS e o alargamento da rede de cuidados de saúde primários. Desbloqueou um projeto estruturante para o Alentejo, avançando com as obras do Alqueva, uma infraestrutura que transformou por completo o médio e o baixo Alentejo. Na área ambiental, encerrou mais de 300 lixeiras a céu aberto e criou sistemas intermunicipais de recolha e tratamento de resíduos; levou o abastecimento de água e as redes de saneamento a muitos territórios do país que ainda viviam em condições muito precárias, com consequências graves para a saúde pública.

José Sócrates surge depois de Durão Barroso ter apostado numa carreira política internacional e ter entregue a chefia do Governo a Pedro Santana Lopes. Independentemente das questões judiciais, José Sócrates, enquanto governante, deixou marcas positivas nos seus dois mandatos. A modernização administrativa do Estado — se compararmos Portugal com a maioria dos países europeus — colocou-nos na vanguarda da digitalização dos serviços públicos, da simplificação de processos e da redução da burocracia. Na energia e ambiente, Portugal assumiu-se como um dos países com maior produção de energia renovável e lançou o Plano Nacional de Barragens. Na educação, lançou o inglês e os computadores Magalhães no 1.º ciclo — os primeiros computadores a entrar em muitas casas portuguesas —, criou o programa Parque Escolar, reabilitando e modernizando a maioria das escolas do país. Nas infraestruturas, iniciou a construção do túnel do Marão, obra inaugurada mais tarde por António Costa, que reduziu drasticamente a sinistralidade rodoviária, aproximou Trás-os-Montes do litoral, reduziu isolamento e teve impacto económico muito positivo na região. A crise financeira internacional viria, contudo, a abalar o seu mandato, culminando no pedido de resgate e na entrada da Troika.

António Costa assume a chefia do Governo através de uma maioria parlamentar com os partidos à esquerda do PS, a chamada “geringonça”. Deixa uma marca de contas certas, com o primeiro excedente orçamental da democracia, a redução da dívida, crescimento económico, forte redução da taxa de desemprego e reposição de rendimentos. Geriu a pandemia de forma eficaz. Apostou na transição energética, na transição digital e em mais e melhores transportes públicos. Reinvestiu no SNS. Conquistou credibilidade internacional que lhe abriu portas para a presidência do Conselho Europeu.

Diria que as dez marcas do Partido Socialista nos 26 anos em que governou foram: Democracia; Liberdade; Serviço Nacional de Saúde; Coesão Social e Territorial; Desenvolvimento Económico; Educação e Ciência; Igualdade de Oportunidades; Modernização do Estado; Contas Certas; Credibilidade Internacional.

⸻

Chegados aqui, impõe-se uma pergunta: se o PS foi responsável por tantas marcas positivas no país, como se explica que os portugueses o tenham relegado para terceira força política na Assembleia da República, enfraquecido a sua presença na Associação Nacional de Municípios — perdendo a presidência — e retirado apoio urbano significativo, sendo preterido nos cinco maiores municípios do país, hoje governados pelo centro-direita?

Apesar de todas as conquistas do passado, o PS tinha obrigação de fazer melhor. O mundo mudou a uma velocidade vertiginosa, e o Partido Socialista não acompanhou esse debate, não se adaptou, não se atualizou, não se qualificou.

Os longos anos de exercício do poder, aliados a alguns erros políticos, acentuaram o desgaste. O fechamento de estruturas partidárias tomadas por caciques afastou os melhores. A ausência de debate com o território desligou o partido das pessoas que o habitam. A soberba de alguma elite socialista, desconectada do país real, quebrou a relação com o eleitorado. A forma como a liderança pós-governo geriu a agenda política foi desastrosa. A acomodação e o envelhecimento de grande parte da Juventude Socialista afastaram os mais jovens. A incapacidade de recrutar para as fileiras do PS nos diferentes setores da sociedade é preocupante. A aproximação de oportunistas criou um problema identitário. O contexto internacional, marcado pela ascensão meteórica da extrema-direita em democracias maduras, acelerou o desgaste da social-democracia e reduziu a base de apoio tradicional do Partido Socialista.

Os populismos alimentam-se do medo, partem de uma visão de lupa para a generalização, fomentam o ressentimento, o desencanto e a revolta. O medo dá origem ao ódio, e o ódio faz com que as fraturas na sociedade sejam cada vez mais profundas. O confronto entre o nós e o eles é terra fértil para alimentar ressentimentos e clivagens de ordem social, racial e geracional.

As pessoas estão cansadas de não verem as suas vidas a avançar. Já não há lugar para diálogo, para discussão entre diferentes campos ideológicos, para compromisso. Cada partido está acantonado no seu espaço. Quem fala mais alto, quem gesticula mais, quem produz soundbytes sobre a espuma dos dias, ganha terreno. A discussão serena, respeitosa e elevada desapareceu. Todos parecem gladiadores na arena romana, lutando apenas pela sobrevivência.

O Partido Socialista tem um enorme desafio pela frente. O Secretário-Geral, José Luís Carneiro, tem pela frente uma tarefa hercúlea. Esta liderança tem sido capaz de reposicionar o PS no centro-esquerda, no campo da moderação, da responsabilidade e da serenidade necessárias para reerguer o PS.

Apesar disso, é urgente mais irreverência e criatividade, tanto na substância como na forma.

O PS não se pode tornar um partido de nicho, representando apenas reformados e algumas franjas desfavorecidas. Precisa de falar às gerações mais criativas e inovadoras do país — dos 18 aos 40 anos — que veem com desconfiança um partido que não aponta caminhos para uma vida digna (habitação e salários justos) e não apresenta uma visão clara para o futuro. A esperança tem de superar a resignação perante velhos hábitos e práticas políticas.

É preciso questionar, ver a sociedade de ângulos diferentes, ter abordagens disruptivas. A política implica risco. O país precisa de discussões substantivas, capazes de mudar o rumo das coisas. Portugal necessita de compromisso entre diferentes espectros políticos em áreas como educação, ciência, defesa, justiça, saúde, ambiente e energia.

Os partidos são instrumentos para melhorar a sociedade. Quando deixam de cumprir essa função, a irrelevância pode assumir contornos irreversíveis.

ETIQUETAS:artigo de opiniãocrónicadestaquehugo piresPSSocialista

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PorHugo Pires
Hugo Alexandre Polido Pires, 45 anos de idade e licenciado em Arquitectura. Foi vereador na Câmara de Braga e deputado na Assembleia da República. Também foi secretário de Estado do Ambiente no Governo de António Costa
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