Labubu, a febre recente dos peluches de reduzidas dimensões, é um dos exemplos da crescente influência chinesa na cultura mainstream contemporânea.
Mas não fica por aqui.
Da disseminação mundial do casaco “Adidas Ano Novo Chinês” às virais animações por IA nas múltiplas redes sociais, passando pela já consolidada rede social TikTok, o surgimento de conteúdos de origem chinesa, com simbologia e referências chinesas, não é só cada vez mais frequente como é cada vez mais aceite e compreendido por uma boa parte da população ocidental, que, aliando-se ao crescente turismo ocidental na China — impulsionado por descontos em passagens aéreas e estadias — faz com que o mundo chinês seja algo cada vez menos distante, criando uma sensação de proximidade.
Até há 1 ou 2 anos, dizia em muitas conversas de café que uma das grandes vitórias americanas era a de ter liderado o imaginário de todo o mundo, onde qualquer pessoa, independentemente de onde morasse, conseguia sentir-se americana ao fim de muito pouco tempo, mesmo que nunca tivesse pisado solo americano.
Essa proximidade, esse “cheiro a casa” de uma casa onde nunca tínhamos estado, era mais do que imaginário: era soft power, era ser a solução natural, a escolha óbvia, a opção que naturalmente dizia mais a mais pessoas.
Mas esse domínio no imaginário coletivo está cada vez mais em risco com o trio moda-turismo-Trump.
A poderosa combinação redes sociais-turismo gera uma eficaz “ação-reação”: as redes sociais convencem os turistas a visitar, estes publicitam o país como sendo moderno e não diabólico como se dizia, trazendo mais gente que faz mais publicidade. É uma política de melhoria da imagem internacional que começa a preocupar muitos analistas ocidentais, que não só sentem que os níveis de simpatia com a China aumentam, como também que o suporte de algumas das suas posições cresce, acompanhado pela crescente desaprovação de Trump e da sua política errática (e dos seus escândalos internos).
Ou seja, mais do que uma melhoria de imagem, é uma efetiva política de ganho de soft power em regiões do globo que até agora eram antagónicas.
Façamos uma rápida comparação entre as imagens que nos chegam dos EUA e da China.
De um lado temos Trump, errático mediaticamente e a querer estrangular a sua democracia; uma economia que retrocede tecnologicamente e procura voltar a uma lógica extrativista; uma crise na habitação; um sistema de saúde público inexistente; um sistema público de transportes fraco; e um país que coloca cada vez mais entraves a turistas.
Diria que o Mundial de Futebol de 2026 e os Jogos Olímpicos de 2028 serão uma oportunidade de ouro para que a imagem que hoje se transmite sofra uma inversão na sua degradação.
Do outro lado temos Xi Jinping, calmo e de declarações curtas; uma economia que se projeta no desenvolvimento e no respeito pelo ambiente; uma crise na habitação marcada pela queda de preços (sim, é verdade); um sistema de transportes públicos omnipresente em todo o vasto território; e um país que recebe cada vez mais visitantes.
Não me entendam mal: é claro que a China está longe de ser uma democracia desejável. Xi Jinping não precisa de ganhar eleições, logo não precisa de sorrir tanto, e o respeito pelas liberdades e garantias individuais é altamente subjetivo, com o Estado a ter uma capacidade demasiado elevada de decidir o futuro de cada um.
Mas é claro, para mim, que a simpatia pela China crescerá nos próximos tempos, à medida que mais pessoas perceberem que a China não é o país poluído de camponeses que alguns fizeram crer, que teremos mais pessoas próximas do modo de vida chinês e mais simpatizantes das posições da China na cena internacional.
Crescerá até a uma eventual invasão de Taiwan — e aí veremos se todo este investimento amaciou os espíritos da opinião internacional.




